O comportamento alimentar brasileiro
Enviada em 03/09/2018
Um marco na história dos hábitos de alimentação foi o momento em que o quadro “Latas de Sopa Campbell”, de Andy Warhol, passou a ocupar lugar de destaque em exposições. Com efeito, o advento da indústria alimentícia fez com que as embalagens, além de acondicionar, também passassem a assumir a função de envolver o produto em aura e fantasia a ponto de tornarem-se ícones do imaginário social. Contudo, esse processo de fabulação é nefasto, pois não visa o bem-estar da sociedade na qual se instala, mas apenas iludi-la e explorá-la em prol do lucro. Desse modo, pode-se afirmar que o intenso assédio publicitário dessa indústria, que é agravado pela permissividade das autoridades, tem provocado o desenvolvimento de uma perigosa cultura alimentícia.
Em primeiro plano, é fundamental considerar a capacidade da publicidade de promover uma ideia positiva dos alimentos industrializados. Segundo o documentário “Face to Face”, durante a Segunda Guerra Mundial, americanos chegavam a alegar que estavam a lutar pelo direito de tomar um refrigerante. Tal fato demonstra a grande eficácia da publicidade em incutir os produtos da indústria alimentícia no estilo de vida de uma cultura. Porém, em oposição ao universo de saúde e felicidade idealizado pelas propagandas, esses alimentos são responsáveis pelo aumento de casos de obesidade, diabetes e hipertensão. Portanto, trata-se de um fenômeno de grande impacto social que requer a intervenção das autoridades responsáveis pela saúde da população.
Somado a isso, a conivência do Estado com o assédio publicitário potencializa os aspectos nefastos dessa indústria. Se, por um lado, para conter os males causados pela indústria tabagista, o governo brasileiro adotou, com sucesso, medidas de contrapropaganda obrigando os fabricantes de cigarro a estamparem nas embalagens imagens impactantes dos prejuízos à saúde trazidos pelo fumo; por outro lado, no tocante à indústria alimentícia, o Estado mostra-se conivente por permitir que essa camufle informações na já minúscula tabela nutricional. Logo, uma inexplicável e preocupante permissividade que expõe ainda mais a população ao ataque e onipresença dessas multinacionais.
Por fim, para mudar essa situação, o Ministério da Saúde deve implementar uma legislação de propaganda que obrigue a indústria alimentícia a exibir imagens contundentes dos efeitos do consumo desses alimentos em embalagens de seus produtos bem como tabelas nutricionais em linguagem acessível. Ademais, o MEC deve promover uma reforma curricular no ensino para que inclua práticas no cotidiano, como o cultivo de hortas e aulas de culinária dedicadas ao ensino de receitas de alto valor nutricional que possam aproveitar esse alimento cultivado em âmbito escolar.Tudo isso a fim de conter o referido assédio publicitário e impedir a ruptura dos laços da população com a alimentação natural.