O comportamento alimentar brasileiro

Enviada em 06/09/2020

O livro “O Cortiço”, do escritor Aluísio Azevedo, trata sobre os contrastes socioeconômicos no Brasil do século XIX. Na trama, enquanto uma família pode desfrutar de banquetes luxuosos semanalmente, outras centenas de pessoas de baixa renda não conseguem sequer a quantidade mínima de alimentos para sobreviverem. Não distante da ficção, o Brasil atual ainda possui contrastes marcantes no que tange à qualidade alimentar. Nesse sentido, o comportamento alimentar brasileiro reflete a desigualdade social do país, de modo que a baixa renda impede os menos afortunados de se alimentarem bem, já as classes com mais recursos, paradoxalmente, optam por alimentos ruins nutricionalmente em detrimento dos saudáveis.

A princípio, é importante salientar que a classe social do brasileiro é decisiva para definir o tipo de comportamento alimentar que ele terá. Sob tal perspectiva, o livro “Quarto de Despejo”, o qual conta a história verídica de uma catadora de lixo chamada Carolina Maria de Jesus, narra a dificuldade dessa mulher em obter dinheiro suficiente para comprar produtos considerados básicos, como arroz e feijão. Nesse ínterim, o comportamento alimentar de Maria de Jesus e de outros milhares de brasileiros em situação semelhante, como os representados em “O Cortiço”, pauta-se na disponibilidade de recursos para a escolha do alimento a ser consumido, o que é, no mínimo, revoltante, pois a Constituição de 1988 garante o direito a uma alimentação de qualidade.

Ademais, sob um viés diametralmente oposto, os brasileiros das classes mais altas, mesmo com condições financeiras para se alimentarem bem, não possuem uma alimentação considerada saudável pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a qual recomenda que um terço da alimentação diária seja de frutas e legumes. Esse fenômeno contraditório pode ser explicado pelas ideias do filósofo Zygmunt Bauman, o qual afirma que as sociedades contemporâneas são movidas pelo imediatismo. Sendo assim, a comodidade que as redes de “fast food” propiciam ao oferecerem uma comida pronta, mas de péssima qualidade nutricional, justifica a preferência dessas classes por esses lanches ao invés dos alimentos recomendados pela OMS, já que os vegetais, em geral, demandam mais tempo de preparo.

Portanto, haja vista as discrepâncias no comportamento alimentar brasileiro de acordo com a renda, como em “O Cortiço”, urge que o Governo Federal destine verbas para mitigar essas desigualdades. Esses investimentos podem ocorrer por meio do subsídio de alimentos saudáveis pelo Estado, o que tornará possível o acesso de pessoas menos afortunadas a uma alimentação de qualidade. Além disso, devem ser promovidas palestras que elucidem os malefícios de uma alimentação imediatista, como a que ocorre no “fast food”. Desse modo, o comportamento alimentar no país melhorará nutricionalmente.