O comportamento alimentar brasileiro

Enviada em 15/09/2020

Na mitologia grega, Prometeu foi acorrentado a rochedos de sofrimento sob a pena de ter seu fígado devorado diariamente por um abutre. Embora seja um contexto ficcional, o mito adapta-se à temática da educação alimentar dos cidadãos do Brasil. À luz disso, apesar das inúmeras condições favoráveis à produção de alimentos, a subnutrição persiste, já que a tendência agroexportadora nacional preza mais pelo lucro do que pela adequada alimentação dos habitantes do país. Nesse espectro, tanto as injustiças da distribuição capitalista dos produtos alimentícios quanto doenças decorrentes dos hábitos idealizados pela mídia e pelo mercado da moda merecem uma análise profunda.

A priori, cabe mencionar que, segundo o filósofo alemão Karl Marx, os sistemas tendem ao fim por causa de suas próprias contradições. Sob esse âmbito, o fato de a classe produtora dos bens de consumo passar fome é uma condição que, aliada à mais-valia, torna o capitalismo contestável. Além disso, a possibilidade de decidir qual a opção mais saudável implica em ter os recursos financeiros necessários, o que marginaliza os menos favorecidos até mesmo nos aspectos essenciais à manutenção da vida. Prova disso é a quantidade de produtos industrializados em detrimento da produção orgânica. Dessa maneira, a saúde é elitizada desde as profilaxias básicas, como a ingestão de comidas menos calóricas.

A posteriori, vale destacar o filme “Wall-E”, em que os humanos, obesos, dependem totalmente dos robôs para suas tarefas cotidianas. Atualmente, segundo o Ministério da Saúde, 53% do povo brasileiro está acima do peso ideal. Geralmente, o que estimula a produção de uma Humanidade semelhante ao filme é a pressão consumista exposta nas plataformas midiáticas na forma de uma publicidade que induz o consumidor ao “prazer” e não à prudência alimentar. Paralelamente, a “problemática inversa” também é recorrente, uma vez que doenças como a anorexia são causadas por abalos psíquicos provenientes de uma infinidade de estímulos – acentuados pela idealização de um “corpo perfeito”.

Logo, é mister o Congresso encaminhar uma lei que assegure medidas protecionistas – no sentido de manter no território nacional a quantidade de alimentos necessária para alimentar todos os indivíduos com qualidade. Com isso, gradualmente, a fome no Brasil poderá ser mitigada. Outrossim, cabe ao MEC a realização de campanhas nas escolas – com o fito de conscientizar os jovens sobre os riscos presentes em um sistema que transforma a nutrição em mercado de itens desnecessários e que, muitas vezes, agridem o bem-estar humano. Assim, o guloso abutre das mazelas do consumismo – como a obesidade - reduzirá os danos ao denegrido fígado anoréxico dos “Prometeus” atuais e, ao discernir a realidade, bicará as correntes dos rochedos da alienação – até rompê-las.