O conceito de família no século XXI

Enviada em 03/10/2018

É conhecido por todos que as famílias nunca tiveram, necessariamente, um formato engessado e imutável. Contingencialmente sempre houve quem tivesse sido criado pelos avós ou tios, por exemplo, ou apenas por um dos pais. Contudo, há quem defenda a opinião de que a família, enquanto instituição, deve ser restringida à comunidade formada apenas por homem e mulher. Tal posicionamento apresenta grandes riscos à democracia, uma vez que ignora a realidade de milhões de pessoas e reduz a sua representatividade social.

Certamente, a ignorância em relação às diversas possibilidades de arranjos familiares gera preconceito. Há poucas décadas atrás, a discriminação que mães solteiras sofriam era ainda mais pungente do que a vivida hoje, já que até finais do século passado o pensamento que funda essa discriminação, que relaciona mães solteiras a mulheres menos valorizáveis, era considerado senso comum. Foram necessários anos, nos quais a reivindicação feminista se fez fundamental, para que esse pensamento fosse desconstruído e transformado no preconceito velado que ainda vemos acontecer.

Tal exemplo demonstra o grande risco que há em permitir que determinações preconceituosas se institucionalizem, seja por vias jurídicas e legais, seja pela propagação de pensamentos falaciosos entre a população. Nesse sentido, não pode o Estado, enquanto primeiro defensor dos direitos dos cidadãos, contribuir para a propagação de preconceitos que estimulariam, sem dúvidas, retrocessos no que se refere à tão frágil tolerância à diversidade, que nosso país começa a construir.

Visando intervir sobre esse risco, medidas paliativas de desconstrução de preconceitos referentes aos modelos de família precisam ser tomadas, a fim de obter resultados a longo prazo. Com esse objetivo, as escolas devem atuar inserindo pedagogicamente esse tema em salas de aula. Além disso, é imprescindível evitar que a institucionalização de um modelo único de família seja efetivada. Para tanto, cabe aos cidadãos a reivindicação pelo direito à diversidade e aos parlamentares a diligência quanto à responsabilidade que têm sobre aqueles que representam e atenção à realidade em que estão inseridos.