O conceito de família no século XXI
Enviada em 15/10/2018
Na visão do filósofo inglês John Locke, cabe ao Estado a proteção a todos os indivíduos, bem como a garantia à vida, à propriedade e à liberdade, que são direitos inalienáveis. Atualmente, porém, observa-se que a problemática vivida pelos indivíduos que não estão integrados à família tradicional comprova que tais prerrogativas não são respeitadas. Isso se deve à falta de atitude do Governo e à compactação da sociedade, que evidenciam a necessidade de mudanças.
Cabe pontuar, em um primeiro plano, que o preconceito e a discriminação com as famílias ao serem formadas por mais solteiras, pais solteiros, casais homossexuais, entre outros, é fomentada pela incapacidade das esferas públicas de exercerem seu poder simbólico e a garantia dos direitos constitucionais. Esse fato decorre da histórica inabilidade estatal em promover medidas protetivas às vítimas da violência e da exclusão social, tais quais, a criação de canais de denúncias e locais de acolhimento, o que diretamente contribui para a perpetuação da problemática. Nesse contexto, parafraseando Chico Xavier, “a omissão de quem pode e não auxilia o povo é comparável a um crime que se pratica contra a comunidade inteira”. Dessa maneira, a imprescindibilidade da superação desse dilema configura-se como um importante desafio político da pós-modernidade.
Vale ressaltar, ainda, as implicações advindas da compactação da sociedade que possui estreita relação com o aumento de casos de ódio e repúdio com essas novas configurações familiares. Essa motivação, dentre outras razões, pode ser explicada por medo de se envolver ou por uma atitude cultural de acomodação. Nesse sentido, em um artigo publicado pela revista Le Monde Diplomatique, o antropólogo e cientista político Sílvio Brava afirma que o aprofundamento de casos de preconceito, no Brasil, adquiriu contornos preocupantes ao atingir um crescimento de 57% na última década, com claras perspectivas de agravamento do quadro. Desse modo, a sociedade torna-se a principal vítima de suas próprias contradições, omissões e condutas.
A falta de atitude do Governo, em paralelo à omissão da sociedade, portanto, são condições diretas para que o grave caso de preconceito e ódio com essas famílias ocorra no Brasil. A fim de que haja a imprescindível superação desse panorama o Ministério da Educação deve implementar núcleos de debates e divulgação sobre a nova configuração familiar. Nesse aspecto, deve-se criar dinâmicas de grupos nas escolas, envolvendo alunos e a comunidade, retratando situações reais com busca de soluções, permitindo, dessa forma, uma ação eficaz no tratamento da problemática. Agindo assim, o Estado idealizado por Locke será real e a construção de uma sociedade em que a paz seja um valor substancial será uma realidade empírica, não um ideal ou uma utopia.