O conceito de família no século XXI
Enviada em 23/10/2018
Em “Casa-grande & senzala”, o sociólogo Gylberto Freire mostra como a Igreja Católica influenciou a formação do Brasil. Nos dias de hoje, essas raízes são perceptíveis quando o tema “novos tipos de constituição familiar” é abordado. No entanto, é inaceitável que um Estado intitulado laico cogite provocar um profundo isolamento sociológico em parte de seu povo, para satisfazer dogmas cristãos.
Deve-se analisar, antes de tudo, o conservadorismo religioso nesse cenário. Isso porque, a colonização portuguesa impôs o catolicismo no país, disseminando, assim, seus preceitos pela sociedade. Com isso, o conceito de família se limitou ao modelo heterossexual, monogâmico e patriarcal. Dessa maneira, por se tratar de uma democracia representativa, os governantes tendem a representar esses ideais. Todavia, há também, na sociedade, indivíduos cujos princípios não seguem tal ideologia. Sendo assim, de acordo com a definição aristotélica de política, a qual afirma que um sistema político deve visar a felicidade das pessoas, torna-se incoerente tentar legislar contra esse grupo. Além disso, a Constituição Cidadã de 1988 garante a laicidade do Estado, então, nenhum argumento dessa natureza deve ser considerado.
Cabe abordar, ainda, os impactos de cercear o direito de um ser humano compôr uma família. Sob esse aspecto, Emile Durkheim afirmou que em uma sociedade orgânica, modelo na qual a maior parte do país está inserido, as conexões sociológicas entre as pessoas são muito fracas. Então, o núcleo familiar torna-se um importante pilar na sensação de pertencimento a algo, fator essencial para o indivíduo. Logo, uma definição conservadora desse conceito pode alimentar o isolamento em gays, adeptos do poliamor, assexuados e até crianças abandonadas, já que a oferta de famílias, com base nessa interpretação, é bastante reduzida. Consequentemente, transtornos psicológicos como ansiedade, depressão e suicídio são mais prováveis nos referidos estratos sociais.
Fica claro, portanto, que um Estado laico não pode estabelecer um conceito de família o qual promova dor em seu povo. Desse modo, incumbe às ONGs ligadas à causa LGBTQ+, pressionar o governo, a fim de frear tais iniciativas conservadoras. Para tal, devem utilizar a internet para convocar idas aos Conselhos e Conferências Nacionais, pois esses são espaços de participação popular na política, e passeadas em centros urbanos. Com efeito, opinião pública, e governantes terão ciência do tamanho do dano causado pelas ideologias preconceituosas. Dessa maneira, a sociedade atual não se distanciará que descreveu Freire, mas as diferentes linhas de pensamento poderão viver em harmonia.