O conceito de família no século XXI

Enviada em 12/08/2019

A menoridade e o eurocentrismo perante o cortiço moderno

Em seu livro “O cortiço”, o autor brasileiro, Aluísio Azevedo, retrata os vários tipos de família existentes no Brasil - desde famílias de mãe solteira, como a de Dona Isabel, famílias homoafetivas e até mesmo as consideradas tradicionais. Fora das páginas, é fato que o país também está permeado por diversas formas de organização familiar. No entanto, o preconceito enraizado na sociedade no que tange ao não tradicional está pautado em uma cultura de preconceito, que é fomentada pela menoridade da população brasileira.

Em primeiro plano, reconhece-se que o Brasil foi construído sob bases europeias que ditavam as diretrizes do considerado correto desde a colonização. Segundo o historiador Florestan Fernandes, durante o processo colonizador, a Coroa lusíada instaurou no país tropical seus costumes baseados na concepção católica, assentando esse feito no movimento da contrarreforma. Desse modo, a prevalência do preconceito com organizações familiares diferentes do ‘homem, mulher e filhos’ é, em suma, fruto de uma assimilação cultural oriunda de séculos passados.

Além disso, persiste-se a prática discriminatória contra famílias alheias á tradicional por inércia dos preconceituosos. Acerca disso, é ponto pacífico rememorar o discurso do filósofo alemão Immanuel Kant, que disserta sobre a menoridade do indivíduo perante o diferente – o ser humano que não sai de sua zona de conforto em busca de conhecer horizontes divergentes aos seus tende a permanecer em sua menoridade, ou seja, tendo aversão àquilo que não conhece. Dessa forma, por mais que seja inconstitucional, desde 1988, acreditar que a família tradicional é a única correta, a passividade do brasileiro em entender, com alteridade, outras realidades, como as retratadas em “O cortiço”, faz com que formas de organização familiar diferentes sofram preconceito de uma grande parcela da nação.

Destarte, é mister que medidas sejam tomadas a fim de melhorar o panorama das diversas famílias existentes no Brasil. Para tanto, faz-se necessário que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) crie materiais digitais – por meio de vídeos e documentários – que traduzam a pluralidade de organizações familiares existentes no país. Poder-se-ia, portanto, aplicar nas aulas de Sociologia, História e Literatura, aulas que utilizassem esse material visando coibir, desde a idade escolar, a aversão ao diferente por meio da busca em conhecer outras realidades familiares. Dessa maneira, é passível de concepção uma nação onde as diversas formas de organização familiar – como em “O cortiço” – possam ser plenamente respeitadas com igual dignidade e valor.