O conceito de família no século XXI

Enviada em 07/12/2020

Na série americana Grey´s Anatomy, as médicas Calliope e Arizona se casam e conseguem formar uma família com sua filha, apesar das dificuldades e preconceitos enfrentados por sua união homossexual. Fora da ficção, é comum que situações de preconceito se apresentem a pessoas que pertencem a núcleos familiares diferentes do tradicional casal heterossexual e seus filhos. Essa questão deriva da forte influência que o machismo ainda exerce sobre a sociedade hodierna, além do descaso do governo no que tange à concessão de direitos a essas famílias, e deve ser debatida.

A princípio, faz-se necessário ressaltar que a cultura machista ainda vigente no Brasil e no mundo do século XXI é um dos principais obstáculos no desenvolvimento da tolerância e do respeito à diversidade familiar. Segundo a teoria “Habitus” do filósofo Pierre Bourdieu, embora possua liberdade de escolha, o indivíduo é primordialmente influenciado pelos hábitos enraizados dentro de um convívio social. Por isso, tem-se que uma pessoa que cresce em um ambiente familiar machista - o qual dita qual deve ser a estrutura correta de uma família e os papéis que cada indivíduo deve desempenhar nela - apesar de ter domínio pleno de seus atos, pode ser levada a julgar conformações familiares diferentes da sua. Tudo isso gera atitudes de discriminação, as quais devem ser extinguidas urgentemente.

Ademais, é imprescindível frisar que a segregação governamental também é um forte agravante do preconceito às novas ordens familiares. No ano de 2015, o então presidente da câmara de deputados, Eduardo Cunha, criou uma comissão especial para acelerar a aprovação do projeto denominado “Estatuto da Família”, de autoria do Deputado Anderson Ferreira, que tinha como propósito oficializar o reconhecimento de “família” como sendo um núcleo social composto por um homem e uma mulher, unidos estavelmente ou pelo casamento. Visto isso, evidencia-se a dificuldade que mães ou pais solteiros, casais homoafetivos e outros arranjos sociais têm de serem judicialmente reconhecidos como família, o que dificulta sua obtenção de direitos e estimula a perseguição social.

Destarte, depreende-se que o conceito de família foi modificado ao longo da História, mas que essa mudança foi acompanhada por muita intolerância, a qual deve ser mitigada. Para que isso ocorra, urge que o Terceiro Setor - as organizações não governamentais - se mobilizem a favor das necessidades e da visibilidade dessa parcela, organizando movimentos sociais e palestras que sejam efetuadas nas ruas e que divulguem a grande diversidade existente nesse âmbito. Isso deve acontecer de modo a familiarizar a população com a causa e naturalizar tais diferenças, e para que situações preconceituosas como as que ocorreram com Calliope e Arizona se mantenham na ficção.