O conceito de família no século XXI
Enviada em 02/12/2020
Ao se perceber o contexto moderno brasileiro, há que se debater uma importante questão: o conceito de família no século XXI. Nesse sentido, diante do preconceito enfrentado pelos indivíduos que não seguem os majoritários padrões de arranjo familiar, cabe estar atento à principal causa e à pior consequência da busca por impor uma definição única para algo subjetivo.
Em primeiro plano, pode-se dizer que a restrição presente no conceito prosaico de família como sendo somente a união de um homem com uma mulher é, substancialmente, fruto da falta de interação comunicativa entre os mais diferentes cidadãos. Com ênfase, as discussões saudáveis acerca da ampliação de ideias, da renovação de concepções e do pensamento livre são postas de lado e dão lugar às imposições preconceituosas dos mais poderosos. O filósofo Jurgen Habermas, com sua teoria da ação comunicativa, explicitou que a melhor forma de solucionar questões que envolvam opiniões diferentes é através do exercício da comunicação entre os agentes, a fim de se chegar a um acordo mútuo. Na contramão disso, em 2015, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, tentou acelerar a aprovação de um projeto de lei que restringia o conceito de família à união de duas pessoas de sexos diferentes, ainda que tal ação promovesse a exclusão impiedosa de uma parcela social que não teve sua voz ouvida.
Como consequência, é cabível citar que as concepções no presente século, por seguirem uma lógica utilitarista, tendem a transformar até o que não deveriam em algo útil. É possível verificar tal fato quando se percebe a rejeição por parte de determinados setores da sociedade acerca da união de dois homens ou de duas mulheres, por exemplo, como possíveis formadores de uma família porque não irão favorecer a lógica mercantil da reprodução. Os filósofos frankfurtianos criticaram a razão ocidental justamente porque ela calcula tudo mediante seus interesses privados e egoístas. Nesse viés, é notória a ocorrência da desvalorização da diversificação dos arranjos familiares, o que sacrifica os cidadãos em nome das finalidades do mercado.
Frente a esse panorama, é necessário buscar soluções que possam amenizar os embates atuais sobre como conceituar família. As instituições escolares, exercendo seu papel formador de cidadãos, podem criar um projeto de debates diários para turmas a partir do ensino fundamental acerca de temas do cotidiano, como os novos arranjos familiares. Através de discussões produtivas, com a inclusão de disciplinas como sociologia e filosofia, por exemplo, os professores poderão suscitar nos alunos reflexões indispensáveis à convivência social, fundamentando a importância do diálogo como meio de se chegar a um consenso entre as partes.