O conceito de família no século XXI

Enviada em 04/12/2020

Na Antiguidade Clássica, os gregos tinham limites bem definidos entre o público e o privado. Contudo, no século XXI, a esfera privada foi invadida pela pública, especialmente no conceito de família. Nesse sentido, a estrutura familiar – isto é, sua composição, não bem-estar – é alvo de posições e opiniões políticas, as quais entendem-se detentoras do poder de escolher com quem as pessoas irão se relacionar, com preferência à “família tradicional” – a união entre mulher, homem e crianças. Sob tal perspectiva, esse cenário desrespeita aspectos importantes da vida social, a saber, a liberdade e o bem-estar dos indivíduos.

A princípio, George Orwell, em sua obra “1984”, narra uma distopia, na qual o Estado impõe-se agressivamente no lar dos cidadãos, por meio de câmeras para cercear sua liberdade. De maneira análoga, tentativas de governos de solidificar uma norma para a constituição familiar replicam a narrativa do autor, visto que é uma invasão sem fundamentos à privacidade dos cidadãos. Dessa forma, ao invés do controle público preocupar-se com o bem-estar e a saúde dos lares familiares que compõem a sociedade, como o respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente em domicílios com jovens, há a vontade explícita de controle sobre a liberdade dos indivíduos de escolherem com quem se relacionar. Com isso, faz-se necessária a dissolução dessa conjuntura.

Além disso, segundo a psicóloga Elisa Epel, a relação governante-governado tem papel determinante na saúde mental da sociedade. Nessa lógica, o bem-estar das famílias que fogem da norma tradicional é prejudicado, dado que, por não fazerem parte desse padrão, não têm seu reconhecimento e, consequentemente, os direitos que deveriam possuir. Dessa maneira, o conceito de família no século XXI deve condizer com as atuais demandas sociais, ou seja, expandido a diferentes arranjos familiares e ser foco de menor preocupação, quando comparado à urgência de promover lares genuinamente felizes e saudáveis. Com base nisso, mais vale preocupar-se com o bem-estar da família do que com quem a compõe.

Portanto, é dever do Estado formalizar o respeito a todos os formatos de família, por meio do reconhecimento legal dos diversos modelos familiares – como casais homo e heteroafetivos, pais solteiros etc. –, a fim de garantir os direitos e a liberdade a todos os cidadãos. Ademais, é importante que as escolas também contribuam para o respeito, por meio da inclusão social com atividades lúdicas – como a representação de famílias fora da norma em leituras de histórias infantis, peças de teatro etc. –, para construir um ambiente saudável entre alunos e professores. Dessa forma, será possível promover o respeito à multiplicidade de arranjos familiares e seu bem-estar.