O conceito de família no século XXI
Enviada em 14/12/2020
“Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida”. Essa afirmação do escritor brasileiro, Millêr Fernandes, pode ser relacionada à problemática do conceito de família no século XXI, uma vez que, a ideia de núcleo familiar apresenta-se historicamente como uma premissa estabelecida pelos padrões domintantes na sociedade, os quais, no Brasil, sustentam-se em uma mentalidade conservadora e catalisadora de intolerância. Dentre os fatores que alicerçam essa realidade, pode-se destacar a cultura heteronormativa e a influência midiática.
Nesse sentido, é preciso reconhecer que o conservadorismo, apoiado na heteronormatividade compulsória, influencia a noção de grupo familiar dos indivíduos. Isso ocorre, pois, ao invés de conceituar esse importante núcleo a partir do que representa para quem o compõe, ancora-se seu significado para em modelo referência baseado na sua composição, o que ocasiona a exclusão da multiplicidade inerente à essa instituição social. Esse panorama é uma representação do que Pierre Bordieu denominou de “violência simbólica”, visto que, mesmo que não haja violações manifestadas fisicamente, afeta com igual sentido a dignidade dos sujeitos que não se adequam ao que é posto como ideal.
Além disso, é importante ressaltar a significativa atuação dos meios de comunicação na manutenção de um ponto de vista conservador e excludente do conceito de família. Tal situação decorre da constante representação da imagem familiar de maneira que não abrange a diversidade da realidade social, criando um imaginário coletivo refém dos padrões reproduzidos e uma dificuldade de desconstrução desse olhar. Assim, como no verso “É que Narciso acha feio aquilo que não é espelho” da canção “Sampa”, de Zé Ramalho, a mídia, ao não abrir espaço para a representatividade, contribui para uma visão que legitima apenas o que é apresentado e resiste ao distinto, reduzindo, mais uma vez, a família aos seus integrantes, e não às características intrínsecas às relações sociais.
Em síntese, fica claro que o conceito de família do século XXI ainda se entrelaça por construções sociais, sendo, no Brasil, diretamente influenciado por uma mentalidade conservadorista. Dessa maneira, mostra-se necessário a criação de um Projeto Nacional para a desconstrução dessa barreira simbólica, o qual, a partir da atuação cojunta do Ministério da Cidadania com o Ministério da Educação, deve promover discussões nas salas de aula das escolas públicas e privadas com a finalidade de romper com conceitos excludentes e preconceituosos, além de investir nas mídias sociais em propagandas inclusivas, possibilitando a formação de uma sociedade mais consciente de sua multiplicidade.