O consumo de carne como questão social: a importância de se discutir os hábitos alimentares na sociedade atual
Enviada em 18/07/2020
Em 2015 estreou o documentário “Cowspiracy”, o qual mostra como a agropecuária está dizimando os recursos naturais em diversos países. Sob essa perspectiva, o consumo de carne aparece como principal motivo do avanço dessa atividade. Por conta disso, é de suma importância discutir os hábitos alimentares da população, visto se tratar de um fato que vai além de simples opção alimentar individual, dado os impactos que tal comportamento traz. Dessa maneira, é necessário rever costumes pessoais e culturais, tratando o assunto como uma questão social, a fim de manter a integridade do planeta.
A princípio, é fundamental ressaltar que o consumo de carne não diz respeito apenas aos indivíduos que o adotam, mas à toda sociedade. Nesse sentido, convém apontar as implicações ambientais que tal hábito acarreta, como avanço do desmatamento para criação de gado, emissão de gases acentuadores do efeito estufa e imensa utilização de água potável para manter toda essa cadeia. Dessa forma, é possível relacionar o conceito de “princípio do dano”, do filósofo John S. Mill, cuja premissa é a de que o ser humano é livre para agir de qualquer forma, mesmo que lhe prejudique, mas desde que não comprometa o outro. Com base nisso, infere-se que o hábito em questão contradiz a máxima de Mill, pois traz consequências para todo o planeta e, por isso, deve ser revisto.
Somado a isso, inclui-se um fator cultural e a importância de mudar a mentalidade em relação à temática. Nessa conjuntura, comer carne é sinônimo de status, porque, em civilizações agricultoras antigas, as carnes estavam presentes apenas nos pratos de reis e da nobreza. Com isso, criou-se a ideia de que consumir tal alimento era atestado de ascensão social, o que se tornou um problema com o aumento do poder aquisitivo da população desde então. Em razão disso, é imprescindível que esse comportamento de modifique, pois, segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, em seu conceito de “Estruturalismo construtivista”, o ser humano é vítima das construções sociais, mas também agente delas. Logo, ele tem poder para mudar essa mentalidade e mitigar os efeitos que ela traz.
Fica clara, portanto, a importância de se discutir os hábitos alimentares na sociedade e suas implicações. Sob esse viés, a Organização das Nações Unidas deve criar uma campanha de alerta ao tema. Isso pode ser feito por meio de vídeos protagonizados por artistas, como método de chamar a atenção das pessoas, contendo dados sobre os efeitos dessa atividade, bem como receitas de pratos alternativos à proteína animal com a mesma qualidade nutricional. Tudo isso com o objetivo de fazer as pessoas repensarem sua dieta e de incentivá-las a adotar outras opções em suas refeições, diminuindo o consumo de carne. Assim, documentários como “Cowspiracy” não serão mais necessários, uma vez que será formada uma população que enxerga sua alimentação como uma questão social.