O consumo de carne como questão social: a importância de se discutir os hábitos alimentares na sociedade atual

Enviada em 20/09/2020

No ocidente, a ubiquidade do consumo de carne animal é um produto de desenvolvimentos históricos recentes. Isto é, pode-se traçar certas novidades do século 19 em diante como sua explicação: a produção mecanizada de comida, melhoras do transporte e aumento generalizado de renda. No entanto, no discurso da sociedade mais ampla, a carne como alimento é um problema social mal analisado – levando em conta critérios de uma análise cultural, ética e ambiental. Assim sendo, delimita-se o caráter imoral da produção e subsequente consumo do item, e propõe-se medidas para coibi-lo.

Primeiramente, faz-se um leitura objetiva dos impactos ambientais relacionados com a produção de carne: a Fundação Heinrich Böll estimou em 2014 que animais de fazenda contribuem entre 6 e 32% das emissões totais de gás de efeito estufa. Além disso, a produção de animais como comida levanta uma preocupação sobre eficiência - a obtenção da nutrição por meio desse processo requer produzir comida para animais, alimenta-los, e depois comê-los. Por certo, existe uma perda enorme de potencial alimentar nesse processo, tendo em vista que o estudo básico da segunda lei da termodinâmica na física diz-nos que nenhum processo pode ser totalmente eficiente.

Por sua vez, o consumo de carne como um hábito social depende em seu nível mais básico de processos culturais antiéticos - a ontologização dos animais como comida e a sua objetificação como produto explorável. Nesse sentido, para a autora Carol Adams, em A Política Sexual da Carne, a própria linguagem revela que utilizamos dispositivos imorais para falar de carne - ‘referentes ausentes’, como se não houvesse nenhum ser morto por trás da carne. Dessa forma, um processo de objetificação, fragmentação e consumo permite a opressão de animais de modo que esses seres tenham sua individualidade esvaziada, e assim possam ser criados e depois mortos em escala industrial sem culpa ou reflexão.

Portanto, cabe às secretarias de educação estaduais e ao Ministério da Educação alterar o currículo escolar a fim de adicionar conteúdos que sistematicamente analisam e desconstroem a questão social da carne, além de instruir sobre o vegetarianismo. Para esse fim, também cabe à escola e seus professores realizar um esforço interdisciplinar (na área de filosofia, para o eixo da ética da produção de carne, na área de sociologia, para o eixo da análise cultural do hábito carnívoro no ocidente, na área de geografia, para o eixo dos impactos ambientais, e finalmente educação física, para a disseminação de informações sobre a dieta vegetariana) ao propósito de atuar em função da ação proposta. Com efeito, tal programa direcionado aos estudantes irá resultar em uma conscientização geral da população futura sobre a problemática discutida.