O consumo de carne como questão social: a importância de se discutir os hábitos alimentares na sociedade atual
Enviada em 05/09/2020
No livro “Quarto de Despejo”, da escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, há o retrato da realidade vivida pelos moradores da periferia de São Paulo na década de 60 que, por falta de nutrição devida, alimentam-se de restos de alimentos retirados do lixo. Infelizmente, o impactante relato de Carolina perdura até os dias de hoje, em um cenário em que o consumo de carne contribui diretamente para a má distribuição alimentícia no país e, para além disso, promove o aumento da emissão de gases do efeito estufa.
Em primeira análise, é evidente que os hábitos alimentares carnistas adotados pelos americanos - num âmbito continental - e, mais precisamente, pelos brasileiros, desembocam em graves consequências sociais. Isso porque, segundo a Mercy For Animals (ONG de Proteção Animal), mais de 50% dos grãos produzidos mundialmente são direcionados para o consumo de animais explorados para o abate - um número que, se redirecionado, teria a capacidade de alimentar uma faixa de 4 bilhões de pessoas a mais. Esse cenário contribui, portanto, para uma hierarquização do consumo nutritivo e consequente subnutrição de grupos socialmente vulneráveis.
Em segunda análise, vale salientar que, para além de problemas sociais mais direcionados, a produção deliberada de alimentos de origem animal provoca, ainda, mudanças climáticas bastante significativas no planeta. Segundo a ONU, o setor agropecuário é responsável pela emissão de quase 15% dos gases do efeito estufa, o que implica dizer que a redução dessas atividades seria de grande benefício ambiental, contribuindo ativamente para o estabelecimento de um reequilíbrio climático.
Depreende-se, portanto, que o debate sobre tais hábitos alimentares deve ser amplamente promovido pelas instituições de ensino, e em especial as escolas, por meio de palestras e discussões em salas de aula, com a presença de especialistas da área de sustentabilidade, bem como nutrição e nutrologia, com o objetivo de formar uma geração que tenha consciência dos impactos que gera - tanto globalmente quanto na vida do próximo.