O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 06/06/2018

No Brasil, paradigmas - principalmente femininos - de beleza corporal são difundidos pela indústria da moda e por clínicas estéticas. Esses conceitos priorizam a magreza e estão intrinsecamente ligados à ampla popularidade de cirurgias estéticas no país - segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, até 2017, foram realizados 1,2 milhão de procedimentos. No entanto, tais padrões são deturpados, aviltados e inverossímeis, porquanto quem os impõe visa somente interesses pecuniários.

Nos desfiles de passarela, é comum que roupas da moda de marcas famosas sejam ostentadas por modelos esquálidas as quais sacrificam-se física e mentalmente para fazê-lo. Estas, a fim de “encaixarem-se” em indumentárias de tamanho ínfimo, submetem-se a dietas alimentares tão austeras que doenças como bulimia, anorexia e depressão fazem parte de suas carreiras. O revoltante é que o motivo de priorizar-se tanto a magreza é que, em corpos delgados, as vestimentas patenteiam-se ou “valorizam-se” mais. Logo, o objetivo precípuo das indústrias da moda não é difundir os aspectos da beleza feminil, senão  lucrar de maneira cruel, compelindo modelos a deteriorar a saúde para adequar seus corpos à meros artigos de venda, quando o sensato e o probo seria promover o oposto, isto é, adaptar os trajes à diversidade corpórea das pessoas.

Na TV e no cinema, é preconizado que mulheres com seios e nádegas avantajadas e ventre pequeno são voluptuosas, desejadas e bem-sucedidas, fazendo com que muitas expectadoras sintam-se infelizes com seus corpos e condicionem sua auto-estima a obtenção desses “predicados”. No anelo de modificar a compleição, moças saudáveis submetem-se a intervenções cirúrgicas que podem ser arriscadas. Um fato que exemplifica-o foi quando, em 2014, a modelo Andressa Urach quase sucumbiu à morte, permanecendo internada cerca de um mês em uma UTI, por uma infecção nas pernas decorrente da aplicação de um produto preenchedor chamado hidrogel. A beleza genuína pressupõe um dom natural admiravelmente único que emana júbilo, entretanto, a indústria da “beleza” distorce totalmente aquela ao estipular padrões frívolos e artificiais, comercializando algo que não tem preço.

Dessarte, os ideais de beleza determinados pelas indústrias da moda e da estética são meramente financeiros. É mister que esses deturpados padrões sejam não somente vistos de maneira crítica, como ainda suprimidos. Para isso, é premente que as escolas, por meio de psicólogos e filósofos, forneçam aos  estudantes de todas as faixas etárias e aos pais palestras, aulas e panfletos que desmistifiquem os paradigmas corporais, bem como que o Ministério da Cultura divulgue propagandas e campanhas que incitem o pensamento questionador dos cidadãos em relação aos abusos das referidas indústrias.