O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 27/10/2019

A  adoração humana com a aparência existe desde as sociedades Antigas. Nesse período, o padrão estético baseava-se na harmonia e no equilíbrio, como é possível observar nas estátuas de mármore gregas. Já no Absolutismo, a beleza e a exuberância eram utilizados para afirmar o poder e divindade dos monarcas; Luís XIV, o rei Sol, é um exemplo do uso da imagem para exaltação própria. Na contemporaneidade, a mídia é a referência de comportamento e beleza. Contudo, as redes sociais e o crescimento da indústria de cosméticos elevaram o culto à aparência a outro patamar.

Em primeiro lugar, as redes sociais permitem que os usuários alcancem um ideal de perfeição. O mundo virtual, ao contrário do mundo real, é controlado por quem o usa. Desse modo, o conteúdo postado é, na grande maioria dos casos, uma edição da realidade, na qual as imperfeições são excluídas e o padrão é -ficcionalmente- conquistado. Além disso, vive-se uma sociedade do espetáculo, que é caracterizada pela exposição exacerbada do indivíduo. Nesse sentido, as postagens precisam ser frequentes, mas também alinhadas com modelo popular para, assim, garantir as curtidas - a marca de aceitação. Como consequência, tem-se um círculo vicioso de busca pelos defeitos e por modos de  escondê-los de maneira a atingir a postagem ideal. Então, cada vez mais, as pessoas ficam presas e devotas à aparência.

A transformação do corpo, no entanto, não fica restrita aos aplicativos de edição. O crescimento e a democratização dos procedimentos estéticos corroboram para a idolatria do corpo. Na questão das cirurgias plásticas, a procura só aumenta: o Brasil é o segundo em número de cirurgias plásticas de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgias Plásticas (ISAPS). A jornada pelo corpo ideal, entretanto, muitas vezes, não é segura. Há pessoas que, por baixos preços e altas expectativas,  se submetem  à situações de risco, como foi o caso do ‘‘Dr. Bumbum’’ e o uso de silicone industrial, que casou a morte de uma pessoa. Assim sendo, o culto ao corpo chega a casos extremos e arriscados.

Fica evidente, portanto, que a devoção ao corpo pode gerar uma obsessão e pode colocar a vida de pessoas em risco. Logo, mudanças são necessárias. O Ministério da Saúde, em parceria com perfis responsáveis e de relevância, pode promover, por meio das redes, debates sobre diversidade de corpos e também dar dicas para se manter saudável a fim de diminuir a  influência de pressões estéticas e incentivar uma rotina com saúde. Além disso, o Poder Judiciário, em associação com instituições como a ISAPS,  pode aumentar a fiscalização de estabelecimentos de estética e seus métodos para garantir que as pessoas que decidam por passar por procedimentos sejam protegidas de pessoas mal intencionadas. Dessa maneira, a relação humana com a aparência pode ser mais saudável e segura.