O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 27/09/2018

Procusto, segundo a mitologia grega, era um bandido que morava numa floresta. O mesmo tinha mandado fazer uma cama com as medidas exatas do seu corpo, e quando capturava uma pessoa, a amarrava nela. Se o corpo do indivíduo excedesse seu comprimento, Procusto cortava-o fora, caso fosse menor, o espichava até adquirir a medida exata. Esse mito grego simboliza exatamente o que a sociedade brasileira tem reproduzido ao impor determinados padrões de beleza. Como exemplo disso, destaca-se a liderança do Brasil como país que mais realiza cirurgias plásticas em jovens no mundo.

Em primeiro lugar, a exposição nas redes sociais tornou os brasileiros atores da sociedade do espetáculo, conceito que, segundo o pensador francês Guy Debord, diz respeito de quando o espetáculo se sobrepõe a vida humana, o real. Nesse sentido, o ser humano se transforma num ser passivo, sem saber que faz parte do espetáculo - assim como ocorre no filme “O Show de Truman”. A cada dia as pessoas expõem excessivamente seus corpos sobre-humanos no espetáculo da internet, de modo a incentivar a busca incessante pela perfeição e o desenvolvimento de distúrbios alimentares e outros males à saúde.

Nesse âmbito, com o intuito de ilustrar os efeitos do culto à padronização do corpo e sua relação intrínseca com as redes sociais, a série americana Black Mirror representou em um de seus episódios uma sociedade em que as pessoas eram hierarquizadas socialmente de acordo com a nota que recebiam num aplicativo, cuja qual aumentava se elas agissem de acordo com o comportamento social esperado e adotassem determinado padrão estético. Ali, a intolerância ao diferente possui como efeito a segregação de pessoas, resultante da ausência de alteridade, que é justamente se enxergar por meio do olhar do outro e se auto-reconhecer. Preocupados com a imagem, a alteridade se torna opaca.

Dessa forma, evidencia-se a fomentação do culto à perfeição originada na fluidez da internet juntamente com a cegueira da alteridade. Infere-se, enfim, que os grupos mais afetados pela pressão da beleza sejam prevenidos e informados acerca de seus possíveis males. Para isso, ações conjuntas  deverão ser promovidas pelos Ministérios do Esporte, da Saúde e da Educação que incluam no programa escolar um debate com especialistas na área e pessoas que já sofreram os efeitos da busca pela perfeição. Ademais, as escolas devem incluir na grade curricular a orientação acerca da melhor forma dos estudantes utilizarem sociais sem excluírem a realidade, que é humana. Desse modo, os alunos formar-se-ão cidadãos mais tolerantes e que encarem a saúde como uma prioridade além de cumprir com a máxima de José Saramago: “se podes olhar, vê. Se podes vê, repara.”. Poder-se-á, assim, mitigar as pressões causadas pelo padrão estético vigente.