O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 17/10/2018

Na mitologia grega, Narciso era muito belo e com sua beleza atraiu a ninfa Eco. Porém, Narciso nunca a correspondeu, pois ficou atraído por si mesmo, e morreu definhando-se no leito de um rio olhando o próprio reflexo de imagem. Hodiernamente, esse mito assemelha-se à busca pelos padrões de beleza impostos pela sociedade. Nesse contexto, pode-se destacar a indústria cultural que impõe estereótipos e gera um comércio a seu favor, assim como os danos à saúde daqueles que lutam pelo formato muitas vezes inatingível.

É indubitável, que a mídia, é uma importante ferramenta para a democratização do acesso a informação e dos conteúdos culturais. Porém, consoante a Theodor Adorno, “O consumidor não é soberano, como a indústria cultural quer fazer crer, não é o seu sujeito, mas o seu objeto”, esclarece o objetivo financeiro das empresas. Outrossim, impulsionado pelo interesse comercial de novos setores (produtos alimentícios, cirurgias plásticas e equipamentos estéticos) que acabam levando as pessoas a esquecer seus valores e se perder nessa estratégia capitalista. Dessa forma, a máquina é capaz de instigar os desejos mais profundos nas mentes humanas, despertando padrões de beleza e relacionando-os com poder e prosperidade.

Concomitantemente a isso, a busca incessante pelo corpo ideal, pode gerar danos irreversíveis a saúde. Desse modo, de acordo com Luciano Chaves, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), “Há cerca de 12 mil pessoas sem qualificação realizando cirurgias plásticas no Brasil, o que coloca seus pacientes em risco de deformidades, erros irreversíveis e até a morte”. Nesse cenário, encontra-se como impulsionador a opção por procedimentos - implante de silicone, lipoaspiração e toxina botulínica - realizados por profissionais desqualificados. Ademais, além do grave risco durante as medidas cirúrgicas, as imposições sobre a estética atual, podem gerar distúrbios psicológicos como: anorexia, bulimia e depressão, agravando o quadro de saúde pública do país.

Evidencia-se, portanto, que essas mazelas transformaram a beleza, no Brasil, em religião e o corpo, em obsessão. Logo, o Governo Federal, junto com o Ministério da Justiça, deve intensificar a estrutura do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), para monitorar conteúdos tendenciosos e divulgue através da própria mídia, TV, rádio e jornais, informações para expansão dessa visão limitante. Igualmente, o Ministério da Educação precisa atuar junto com as entidades educacionais com promoção de projetos e debates, realização de campanhas educativas que contemplem ações com finalidade na desmitificação desse padrão utópico. Em suma, a realidade poderá se distanciar do mito grego de Narciso e os brasileiros lograrão em uma sociedade mais ética.