O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 26/10/2018

Segundo o filósofo Karl Marx, a aparência e a essência assumem uma postura dialética para descrever o fetiche no sistema capitalista. Neste sistema, há um esvaziamento da essência, restando apenas a aparência como fator primordial nas relações humanas. Analogamente, no Brasil, o culto à padronização do corpo é o reflexo da objetificação da mulher a partir de sua aparência, esvaziando sua essência. Diante desse contexto, observa-se a construção de um arquétipo idealizado do ser mulher, bem como o papel da mídia sexista como um impulsionador desse arquétipo.

A princípio, é necessário destacar que a construção de um arquétipo da mulher, baseado em visões de teóricos masculinos, culminou na objetificação de seu corpo. De acordo com a filósofa Simone de Beauvoir, os homens, ao terem escrito grande parte do conteúdo sobre a natureza humana, adotaram a masculinidade como padrão, restando às mulheres a diferença desse padrão; se a natureza - ou seja, o homem - é essência, a mulher é apenas sua aparência. Assim, o desenvolvimento desse arcabouço teórico proporcionou, às mulheres, um papel secundário no desenvolvimento humano. Consequentemente, isso resultou na marginalização das mulheres na construção da essência humana, restando a objetificação da sua aparência.

Faz-se mister, ainda, salientar o papel da mídia sexista, um impulsionador da padronização corporal. Conforme o conceito de violência simbólica, trazido pelo sociólogo Pierre Bordieu, quando comportamentos de repressão moral, não necessariamente físicos ou verbais, incidem sobre a sociedade, tal situação revela uma relação de dominância na estrutura desse corpo social. Exemplo disso é o papel da mídia na objetificação do corpo ao tentar impor um padrão de beleza para as mulheres, normatizando a idealização de seus corpos. Como resultado, vê-se a generalização de um pensamento que não coincide com a realidade vivida pela maioria das mulheres.

Dessa forma, é necessário que, para mitigar os efeitos do culto à padronização do corpo no Brasil, que as escolas abordem temas relacionados ao gênero e a sua relação com o padrão de beleza por meio de palestras, renovação dos projetos pedagógicos nas áreas de história, sociologia e filosofia, com a proposição de que os jovens sejam esclarecidos sobre o papel de seus gêneros no desenvolvimento história, a fim de concretizar uma igualdade de gênero. Ademais, a mídia deve, por meio de propagandas e em programas de cultura, como novelas e filmes, ratificar o papel da mulher como detentora de suas próprias escolhas de aparência e opinião quanto à beleza, a fim de que, aos poucos, o padrão de beleza constituído na sociedade seja menos nocivo a esse gênero.