O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 27/10/2018

O filósofo francês Michael Foucault, ao elaborar sua teoria racionalista, acreditava que o poder não estaria restrito apenas ao ambiente político. Na verdade, ele teria se fragmentado em “micropoderes”, os quais estão espalhados por todas as estruturas sociais e que, de maneira velada, “adestram” as pessoas. De fato, quando em vista a questão da busca incansável pela perfeição do corpo no Brasil, percebe-se uma nova realidade sobre o conceito de belo, que impõe coercitivamente seu poder integrador no corpo do outro. Assim, a busca pela padronização implica em uma série de consequências, que vão desde o transtorno alimentar até o suicídio.

A princípio, um olhar atento para a história se faz importante para entender esse cenário: com o Renascimento, houve um resgate da cultura greco-romana, conhecida pela valorização excessiva dos corpos atléticos. Assim, com o passar do tempo, um físico mais “escultural” tornou-se o principal padrão de beleza da atualidade e, com frequência, nota-se uma certa pressão para ser homogeneizado. Nesse contexto, muitas pessoas, principalmente as mulheres, majoritariamente afetadas pelo discurso midiático, passaram a se submeter à dietas perigosas e procedimentos estéticos inseguros para atingirem o “ideal de perfeição” e serem aceitas no meio social. Em vista desse paradigma e consoante ao pensamento de Carl Jung, constata-se que todos nascemos originais, mas morremos cópias.

Ao mesmo tempo em que a obsessão pela busca do corpo perfeito revela grandes falhas educacionais na comunidade brasileira, ela também indica graves problemas relacionados à saúde pública. Os casos de transtornos alimentares, como a anorexia, a bulimia e a vigorexia aumentam exponencialmente e alertam para uma possível pandemia. Logo, o “corpo dos sonhos”, vendido pela grande mídia, faz com que as pessoas passem a ter uma visão distorcida de seu próprio “eu”, o que se torna em uma obsessão por seu peso e aquilo que come. Entretanto, é de consenso geral que a beleza é algo singular e cultural, não devendo ser rotulada.

Urge, portanto, a necessidade de medidas que coíbam esse impasse. Por isso, é fundamental que a escola, por ser um espaço de discussão e formação de opinião, promova debates dialéticos com os discentes, mediados por psicopedagogos, que ponham em pauta o tema da estética no país, de modo a alertar sobre os perigos desses procedimentos. Ademais, é papel do Ministério da Saúde, em conjunto aos postos de saúdes locais, disponibilizar psicólogos e terapeutas direcionados às pessoas que sofrem com o distúrbio de imagem, a fim de ajudá-las a resgatar a auto-estima e de se reafirmarem, independente do padrão, buscando estar em boa saúde. Só assim, tal qual como pontuado por Foucault, os seres humanos serão mais fortes que os micropodores.