O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 03/09/2019

O desenho “Homem Vitruviano”, do artista Leonardo da Vinci, retrata o ideal clássico de beleza, apresentando a perfeição das proporções do corpo humano. Embora datada do Renascimento, a obra se faz atual, na medida em que, na sociedade contemporânea, a aceitação pessoal, assim como a social, passou a ser determinada pelo aparência, sendo o físico priorizado em detrimento da essência. Desse modo, é fundamental analisar o atual panorama para desconstruir essa realidade.

É importante destacar, antes de tudo, que, em consonância com os sociólogos Adorno e Horkheimer, a indústria cultural promove, por intermédio dos meios de comunicação, uma brutal homogenização de corpos e comportamentos e isso é potencializado, hoje, pelas redes sociais. A exemplo disso, os chamados “influenciadores digitais”, muitas vezes, sem senso de responsabilidade pelo conteúdo produzido, cultuam - de forma inconsciente, ou não - a aparência de forma exacerbada, e, com isso, estimulam seus “seguidores” à realização de procedimentos estéticos em busca do padrão reproduzido. Com isso, o corpo humano é considerado uma mercadoria, sendo obrigado a seguir padrões de “qualidade”, configurando um grave afronte às individualidades de cada um.

Outrossim, a incansável e abusiva busca pela perfeição tem travado dura batalha contra a saúde. Acerca disso, o uso indiscriminado de substâncias e a realização de procedimentos estéticos podem ocasionar sérios casos clínicos e pôr a vida do indivíduo em risco, a exemplo da ex-modelo Andressa Urach que, pela aplicação de hidrogel no corpo, quase foi a óbito. Além disso, diversos transtornos alimentares - como a bulimia e a anorexia - são consequência da dificuldade de aceitação do próprio corpo, e isso, além de ocasionar danos ao físico, mina a vida social do indivíduo, de acordo com a psicóloga clínica Marina Oliveira. Esse panorama denuncia os exageros em nome da beleza, os quais mutilam gravemente a “physis” humana.

Concernente à problemática, urge, portanto, uma atuação conjunta na qual a mídia, por meio de campanhas publicitárias, promova ações que valorizem os diferentes fenótipos, a exemplo do já feito pela Dove, com o objetivo de quebrar padrões e ensinar o respeito à diversidade. Nessa mesma linha, Ministério da Saúde deve investir em projetos dentro de instituições de ensino, como o “Programa Semente” - que busca formar psicologicamente e emocionalmente cidadãos, ao trabalhar o autoconhecimento -, por intermédio de palestras com equipes multidisciplinares compostas por médicos, psicólogos e nutricionistas, para que esses debatam e eduquem  para a responsabilidade dos cuidados com o corpo, objetivando o enfrentamento à vaidade excessiva e às consequências disso, deixando, assim, a busca pela perfeição se restringir à produção artística da Idade Moderna.