O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 08/09/2019
Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, é retratada uma sociedade com pessoas criadas e programadas em laboratórios que obedecem a um padrão estético e comportamental. Longe de ser ficção, o Brasil atual vê-se caminhando em direção a uma população homogeneizada. A busca pelo corpo ideal é alimentada pela mídia, consolidada na sociedade e as consequências podem ser cruéis para aqueles que tentam se encaixar nos moldes.
O sociólogo Pierre Bourdieu afirma, em sua teoria Habitus, que estruturas corporais são incorporadas no processo de socialização, de modo que certas características sejam naturalizadas e reproduzidas ao longo das gerações. Dessa forma, entende-se que revistas, novelas e grandes marcas criam um padrão estético, pois é na escolha de modelos com determinado tipo de cor, corpo e cabelo que se cria no imaginário popular um ideal a ser alcançado. Essa busca pelo padrão, porém, se contrasta com as múltiplas faces do povo brasileiro e frustra aquele que tenta o alcançar.
Assim, com essa padronização corporal e com a diversidade do Brasil, as pessoas não veem nas capas e dão início, a todo custo, à busca pelo corpo perfeito. Uma das maiores consequências da criação de um ideal estético é a associação dele à felicidade. Com isso, entende-se que tudo vale para se alcançar o corpo desejado, até mesmo sacrificar os cuidados com a saúde. Vê-se, então, uma sociedade repleta de indivíduos que cederam a pressão estética de tal forma que desenvolveram transtornos alimentares e de imagem. Como é visto no filme “Mínimo para Viver”, em que é retratado um centro de reabilitação para jovens que, mesmo com seus corpos adoecidos, lutam para alcançar um padrão inatingível.
Ficam claras, portanto, as severas consequências advindas da criação e propagação de um padrão corporal. Por isso, é necessário que seja fortalecido e disseminado, em meios de comunicação em massa, o discurso do “body positivity” (positividade corporal), um movimento social enraizado na crença de que todas as pessoas devem ter uma imagem corporal positiva, para que, desse modo, haja uma ruptura nos ideais estéticos a partir da sociedade que, assim, exigirá das mídias a representatividade da diversidade brasileira. Com isso, espera-se que o Brasil se afaste da realidade distópica de Aldous Huxley.