O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 15/09/2019
No livro “Admirável Mundo Novo”, é retratada uma sociedade totalitária e cientificista, na qual o condicionamento do comportamento dos indivíduos provocou a desumanização das interações e a perda dos aspectos sentimentais no convívio social. Para além da ficção, nota-se que, no Brasil, o culto à padronização corporal estabelece um cenário semelhante ao da literatura, já que a uniformização do biotipo das pessoas contribui para a exclusão de certos grupos e resulta em sérios danos à saúde emocional dos cidadãos. Assim, cabe a análise acerca das principais causas dessa problemática, com destaque à coerção familiar e à ganância dos canais comunicativos.
A priori, é válido reconhecer a repressão do âmbito parental a dadas constituições físicas como uma das origens do impasse. Segundo o sociólogo francês Émile Durkheim, a “Consciência Coletiva” é um sistema de regras e preceitos que exerce pressão sobre o ser humano de modo a influenciar as suas ações. Nesse contexto, a família, como instituição essencial na manutenção da “Consciência Coletiva”, transmite aos seus membros valores ligados à predileção de determinados tipos corporais em detrimento de outros, o que dá margem à limitação maléfica dos hábitos alimentares por pessoas dispostas a atingir o padrão almejado e à exclusão social dos brasileiros que não aceitam essas restrições. Dessa forma, torna-se fundamental desfazer preceitos negativos do grupo parental no País.
Além disso, a dominação da mídia sobre o comportamento individual com o intuito exclusivo de obter capital também pode ser apontada como causa da problemática. De acordo com o filósofo iluminista Immanuel Kant, o ser humano possui um fim em si mesmo, isto é, ele não deve ser usado para alcançar objetivos externos ao seu desejo. Nessa perspectiva, a presença contínua de propagandas depreciadoras dos corpos que fogem da perspectiva de pouca gordura e a divulgação excessiva de produtos referentes à superação desse estado confrontam a concepção de Kant, visto que tal situação leva à alienação do brasileiro e à sua utilização para suprir a ganância da publicidade nacional. Desse modo, observa-se o caráter nocivo do papel assumido pela mídia ao perpetuar a uniformização física.
Fica evidente, portanto, que são necessárias medidas para amenizar a padronização corporal no Brasil. Logo, é mister que o Poder Público e a sociedade civil promovam a desconstrução do enaltecimento exacerbado das famílias por certas estaturas, mediante campanhas publicitárias fidedignas e palestras que visem informar a população acerca do feitio prejudicial e segregador dessa prática. Outrossim, o Ministério Público Federal, como instituição inspecionadora do âmbito comunicativo, deve coibir a veiculação de comerciais preconceituosos quanto á aparência externa, por meio de programas governamentais que objetivem a fiscalização das atividades desse meio.