O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 23/09/2019
A Grécia Antiga - berço da filosofia reflexiva - valorizava os cidadãos virtuosos, ou seja, pessoas que possuíam corpos ideais, geralmente musculosos, e conhecimento para deliberar sobre os assuntos da cidade. Atualmente, no Brasil, o culto à padronização corporal, semelhante ao contexto grego, coloca-se como problema a ser mitigado, na medida que, para encaixar-se ao molde social, os cidadãos buscam mudanças que fragilizam a sua integridade física. Com efeito, para reverter essa lógica, há de se desconstruir a influência midiática e a omissão escolar acerca do tema.
Sob essa perspectiva, evidencia-se que os indivíduos buscam o corpo perfeito, pois as mídias propagam um determinado modelo de estrutura física impecável. A esse respeito, de acordo com Theodor Adorno, a indústria cultural, por meio do entretenimento, impõe padrões comportamentais que - por causa da repetição ininterrupta - serão reproduzidos pelos consumidores. Nesse contexto, por propagar constantemente uma suposta constituição física ideal, as pessoas que não detêm silhueta semelhante sentem-se excluídas e, para fazer parte do padrão, acabam buscando formas milagrosas para transformar seus corpos, o que debilita a sua saúde. Dessa forma, enquanto estiverem suscetíveis esse tipo de imposição, os cidadãos continuarão caindo na armadilha da beleza idealizada.
Ademais, a ausência de debates nas escolas sobre a temática agrava a questão. Nesse viés, para Paulo Freire, o ambiente educacional não deveria focar apenas na reprodução de conteúdos, mas também propor a discussão de temas que fomentem a criticidade dos alunos. Ocorre que, por não seguir o modelo freiriano, os colégios negligenciam tópicos como a padronização corporal, o que leva a alienação dos indivíduos, uma vez que esses fazem uso de remédios e suplementos por acreditarem que estão atingindo uma vida saudável na busca pela “beleza perfeita”, gerando, dessa maneira, uma sociedade que associa - equivocadamente - estrutura física sublime com saúde. Logo, para desfazer a busca pelo corpo ideal, é necessário que a escola potencialize a conscientização através do debate sobre o assunto.
Torna-se importante, portanto, ressaltar a urgência de ações para frear o culto à padronização cultural vigente no Brasil. Nesse sentido, a sociedade civil deve construir o sentimento de repúdio à imposição do padrão corporal pelas mídias, por meio de debates nas redes sociais, com intuito de gerar uma sociedade que não caia nas armadilhas da indústria cultural, o que atenuaria a sua influência sobre os corpos dos cidadãos. Outrossim, o Ministério da Educação deve conscientizar os alunos, por intermédio de palestras escolares que enfatizem a diferença entre vida saudável e busca por corpo ideal. Essa medida formará indivíduos que priorizem a saúde em detrimento de um suposto corpo perfeito.