O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 14/10/2019
Seja pelas linhas de formosura espartana esculpidas na estátua de Davi por Michelangelo, ou ainda pela curvilínea e delicada face de Mona Lisa de Leonardo da Vinci, a busca pelo retrato da beleza humana é tão antiga quanto a própria civilização em si. Dessa forma, não é recente o fato que o homem busque por padrões estéticos aos quais alcunhe o valor do belo. Contudo, surge atualmente um problema que recai na idealização que esses padrões podem vir a ter quando comparados com a realidade comum da maioria da população: nem todo mundo, obviamente, tem o corpo escultural de Davi, ou o sorriso perfeito de mona Lisa. Frente a esse conflito psicológico, sérios problemas tem surgido na sociedade, frutos da busca por padrões de beleza idealizados e muitas vezes inatingíveis.
Primeiramente, é inegável que a exacerbação atual da auto-imagem do indivíduo tem alcançado patamares nunca antes vistos na história do homem. Atualmente, a preocupação com a “selfie” perfeita tem sido prioridade na vida de muitos jovens e adultos nas redes sociais, enquanto que a busca de um corpo que se possa ostentar é o objetivo de muitos daqueles que lotam as academias de ginástica no verão. Em ambos os casos, nota-se o indivíduo perseguindo um esteriótipo de beleza, que muitas vezes nem é sinônimo de saúde, mas sim de doentia vaidade, uma idealização distorcida da realidade.
Ademais, todo um comércio nocivo orbita e fomenta a busca do padrão de beleza idealizado. Tanto isso é verdade, que a indústria de remédios nunca vendeu tantos inibidores de apetite como atualmente, a ponto de fazer com que a Anvisa começasse a regular sua comercialização com receita especial assinada por médico responsável. Ainda apenas no quesito médico, o Brasil incrivelmente também passou a figurar como um dos campeões mundiais e número de cirurgias plásticas realizadas. Quais as consequências nefastas desses dois dados? Nunca tivemos tantos casos de anorexia e bulimia gerados por medicamentos e também nunca tivemos tantos casos de mortes por pessoas que foram procurar procedimentos estéticos em clínicas e médicos não habilitados.
Em face dessas evidências, é triste verificar a que ponto a busca pelos padrões de beleza idealizados tem trazido os brasileiros. Como forma de mitigar esse problema de ordem primariamente psicológica, cabe ao Ministério da Educação criar material de divulgação nas escolas e faculdades que promova toda uma higiene mental quanto à auto-imagem dos alunos, incluindo, sempre que possível, palestras com psicólogos que objetivem quebrar pré-conceitos de imagem e idealizações de beleza sutilmente impostos por setores da sociedade. Com isso, podemos esperar uma geração mais capaz de se libertar desses paradigmas sociais e admirar abertamente, portanto, a maior beleza possível do gênero humano: a diversidade.