O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 24/10/2019
Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada indivíduo possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca do culto à padronização corporal no Brasil, percebe-se a influência de diversos atores sociais na configuração desse problema. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como o viés mercadológico de certos ramos industriais catalisa essa construção, mas também analisar seus impactos no organismo social.
A partir dessa problematização, cabe compreender como as indústrias da moda e da estética se veem favorecidas pela eleição de padrões corporais de difícil alcance, perpetuando suas vendas. Atesta-se, então, o olhar de Bourdieu, na medida em que esses atores sociais influenciam as peculiaridades sociais pela estipulação de algo bom a ser seguido por todos. Vale acrescentar, também, o capital oriundo desse mercado segregacionista e analisar seu desdobramento na persistência dessa seleção de padrões, pois, automaticamente na escolha de uns, exclui-se outros, e, portanto, essas pessoas excluídas do ponto de vista estético recorrem à compra de géis emagrecedores, alimentos e roupas que atender ao esperado pelo mercado, criando, nesse sentido, um círculo vicioso. É evidente, dessa maneira, a necessidade de uma maior regulamentação do mercado pelo Estado, de modo a atenuar essa influência sobre as pessoas e suas problemáticas.
Paralelamente à questão mercadológica, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno dificulta o combate ao tema. Constata-se, assim, a ótica de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para a construção da cultura de auto-afirmação corporal, dessa maneira, explicando o dado alarmante publicado pela Dove de 83% das mulheres brasileiras insatisfeitas com seu corpo, as quais por vezes buscam uma padronização estética. Seja essa busca pela prática de exercícios físicos, ou, na maioria das vezes, pela compra de cosméticos e emagrecedores, favorece-se, assim, o surgimento de transtornos alimentares e psíquicos, como a bulimia e a anorexia. Nesse sentido, também confirma-se o pensamento de José Saramago, pois em sua “falsa democracia” há a ilusão de livre escolha, enquanto estas são regidas pelos padrões mercadológicos. Urge, portanto, a necessidade da reestipulação dos valores sociais, de modo a conscientizar a sociedade e a afastar deste mal.
Entende-se, diante do exposto, a necessidade de medidas serem implantadas para a contenção do quadro atual. A princípio, é fundamental que o Ministério da Justiça fomente meios que contenham a projeção industrial sobre as individualidades, isso pode ser feito pela criação de órgãos específicos que fiscalizem as publicidades e, em situações extremas, multem as empresas e retirem esses materiais de circulação, de modo a reduzir a criação de novos padrões. Ademais, cabe aos Ministérios da Educação e da Saúde o desenvolvimento de uma nova diretriz educacional que, ao ser implementada desde a primeira infância, construa um sentimento de valorização corporal atrelado à saúde, por meio de palestras e de dinâmicas, na intenção de alertar os indivíduos sobre os riscos dessa imposição de padrão corporal. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.