O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 01/05/2020
Na canção “Garota de Ipanema”, Tom Jobim expressa suas considerações e preceitos diante de uma mulher: sobredourando-a. Embora romantizada, sua letra, da década de 60, evidencia um, decerto, modelo estético inerente à musa, mostrando que, no Brasil, o culto à padronização corporal é um empecilho de longa data. No entanto, esse contexto se estende à sociedade no geral, de forma que, nos dias de hoje, é ubíquo um paradigma que associa a problemática à felicidade individual. Dessarte, aponta-se o papel dos criadores de conteúdo “on-line” como a principal razão dessa mazela, o qual incita a adesão prejudicial a arquétipos.
De início, afirma-se que, atualmente, os influenciadores digitais agem com dolo e acentuam a padronização estética no país. Para depreender isso, vale evocar o perfil, no “Twitter”, “Instagram vs. Realidade”, o qual denuncia, por meio do “@instavsreali”, as dissonâncias entre imagens possivelmente falsas postadas por “influencers” e a realidade. Nessas postagens, é notório o apelo estético que dialoga com os usuários, o qual transpassa o caráter utópico à compreensão social, consolidando padrões de beleza - mormente atrelados à constituição física - e até mesmo uma falsa noção de felicidade, haja vista que essas fotos nem sempre condizem com as sensações dos criadores, tampouco com as dos seguidores.
Contudo, como consequência disso, os indivíduos, em uma busca ávida e coercitiva por tais emoções, infelizmente, tendem a adotar esses arquétipos corporais. Esse panorama reflete a leitura social oferecida por Steven Cutts, no curta “Felicidade”. Nele, o personagem principal, um rato, em busca de felicidade, reproduz toda suposta atividade que lhe daria tal sensação, porém, distante do esperado, tudo isso apenas o entristeceu. De maneira análoga, sob esse prisma, se os usuários “compram” essas ideias transpassadas pelas postagens, observa-se uma sociedade extremamente infeliz, que se espelha à de Cutts e que solidifica o preceito da padronização corporal.
Portanto, visto a intempestividade da problemática, infere-se que é imperioso dissolver as ações tortuosas dos criadores de conteúdo “on-line” para conter esse paradigma na contemporaneidade. Para tanto, compete ao Estado, enquanto unidade deliberativa máxima no Brasil, o dever de, por meio de políticas públicas referentes ao Ministério da Cidadania, criar um arcabouço fiscal inerente às postagens em redes sociais no país, aplicando sansões aos que acometam à enganação por meio de imagens, vídeos etc. Com isso, observar-se-á uma população que não pauta suas emoções nas diretrizes alheias, divergindo, sobretudo, da padronização corporal e dos pressupostos anacrônicos de Jobim em “Garota de Ipanema”.