O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 25/05/2020

Em sua música “Scars To Your Beautiful”, cicatrizes em sua beleza, em português, a cantora norte-americana Alessia Cara denuncia como a imposição de ideais estéticos inflige à singularidade corporal dos indivíduos na atualidade. Como na canção, o culto ao corpo tomou proporções alarmantes no que diz respeito à influência das mídias sociais, bem como no subsequente desenvolvimento de doenças psicossomáticas nos internautas.

A priori, é imperioso entender como os produtos culturais, especialmente os veiculados por meio das redes sociais, exercem domínio sobre o comportamento dos espectadores. Segundo a escola de Frankfurt, a massificação da cultura, majoritariamente reduzida à mercadoria no sistema capitalista, teve origem na Primeira Revolução Industrial, momento em que o processo produtivo e as relações sociais sofreram mudanças abruptas na lógica de funcionamento. Nesse viés, a filosofia frankfurtiana é validada quando, nesses espaços digitais, existe um intenso bombardeio de propagandas publicitárias publicadas por influenciadores digitais, os quais impulsionam seus seguidores ao consumismo desenfreado e a busca por produtos ditados em tendência no mundo da moda, a chamada Indústria Cultural fortemente criticada na composição de Cara.

Outrossim, os sentimentos de inconformidade e frustração provocados pela inadequação dos padrões torna-se impulsionador para o surgimento de doenças psicossomáticas nesses indivíduos. Ademais, o filósofo Byung-Chul Han descreve o mundo hodierno como um lugar onde a busca excessiva por bons resultados e aceitação encaminha a sociedade para um estado de cansaço, na qual a inovação é limitada e as pessoas são infelizes. Analogamente, na busca incessante pelo corpo perfeito, esses internautas inserem-se em um ciclo sem fim, de forma que o corpo somatiza as realidades vivenciadas no espaço habitado abrindo, consequentemente, lacunas para as doenças psicológicas, como a depressão e ansiedade, além dos distúrbios alimentares.

Portanto, fica evidente que o culto à imagem, na contemporaneidade, é um grave excesso. Para tanto, cabe ao Ministério das Inovações e Comunicações, em conjunto às plataformas digitais, criar filtros para a publicidade – de modo que atenuem a quantidade de publicações -, as quais direcionam os usuários ao consumo desregrado e que incitam à procura por ideais estéticos. Isso deve ser feito mediante alterações dos algoritmos, os quais abrigam as preferências individuais nessas redes, com o fito de tornar o espaço digital menos distópico e mais próximo à diversidade corporal das pessoas. Logo, será possível romper com a descrição feita por filósofos de Frankfurt.