O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 24/06/2020
“O pior mal é aquele visto como cotidiano”. A máxima da filósofa alemã Hannah Arendt aponta, de acordo com seus estudos, a indiferença da sociedade frente a certas questões. Nesse contexto, destaca-se o culto à padronização corporal, que influencia o comportamento da população e gera prejuízos na saúde e no bem estar dos indivíduos que estão fora desse modelo, sendo esse um problema que está diretamente relacionado à realidade do país, seja pela indiferença social, seja pela negligência da mídia.
A princípio, destaca-se a cultura da ignorância perpetuada por parte da sociedade, que, muitas vezes, devido ao senso comum, não entende os malefícios causados pela busca indiscriminada por um padrão de beleza difícil de ser alcançado naturalmente. Isso é concordante com o pensamento de A. Schopenhauer de que os limites do campo da visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo que a cerca. Tal fato, pode ser observado na reportagem publicada pela revista Abril, em 2019, que informa o aumento de 20% na procura por cirurgias plásticas em relação ao ano anterior, refletindo a insatisfação da população com o seu próprio corpo.
Outrossim, é incontestável que a tendência midiática esteja entre as causas do problema. Poucas são as campanhas publicitárias que se preocupam com representatividade, preferindo atores normalmente magros, brancos e loiros em detrimento a todas as outras características físicas, elegendo de forma direta o padrão de beleza a ser seguido. Nesse prisma, de acordo com o filósofo E. Durkheim, configura-se a perpetuação de um Fato Social, que influencia a sociedade e se perpetua geração após geração. De certo, isso fica claro na manifestação de estranheza da população frente a modelos “plus size”, por exemplo, demonstrando que os padrões considerados “normais” ainda são aqueles definidos pela propaganda midiática .
Diante desse cenário fica claro que o culto à padronização corporal é consequência da falta de informação aliada a propagação de um padrão único de beleza como forte Fato Social. Por esse motivo, é mister que Estado promova o acesso à informação para sociedade, por meio de campanhas de conscientização veiculadas nos principais meios de comunicação, como TV e internet, a fim de provocar a ressignificação do que é ser belo na população, sendo isso necessário para diminuir os efeitos negativos da busca pelo corpo perfeito. Além disso, os cidadãos devem pressionar as marcas que não os representam, por meio de manifestações nas redes sociais, para que, gradativamente, esse problema deixe de ser indiferente para a sociedade conforme o pensamento de Hannah Arendt.