O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 06/07/2020
No filme “O Mínimo Para Viver”, é narrada a história de Ellen - uma jovem de 20 anos - que sofre de anorexia e, após quase morrer, entra em um grupo de apoio liderado por um médico. Embora seja uma ficção, a realidade de Ellen tem se tornado cada vez mais comum, uma vez que o culto à padronização corporal representa um problema nocivo tanto para a saúde física quanto mental de indivíduos. Nesse preocupante contexto, é necessário compreender como a disseminação de propagandas e a busca por perfeição contribuem para a persistência desse culto e, consequentemente, para a ocorrência de distúrbios alimentares no Brasil.
Em primeiro lugar, a excessiva transmissão de propagandas e comerciais é uma questão crucial ao analisar o problema. Segundo os filósofos Adorno e Horkheimer, da Escola de Frankfurt, a disseminação de propagandas em massa tem o objetivo de criar uma sociedade de consumo padronizada, cujo aspecto marcante é a venda de produtos para necessidades iguais. Dessa forma, ao criar e divulgar um padrão estético inalcançável, empresas podem lucrar ainda mais com a venda de cosméticos e serviços - o que é extremamente vantajoso para o capitalismo. Contudo, tal publicidade acarreta não somente o consumo, mas também o culto a uma beleza inatingível e a dificuldade de autoaceitação de indivíduos.
Além disso, a necessidade de aparentar perfeição contribui para a persistência desse quadro. No livro “Sociedade do Espetáculo”, do sociólogo Guy Debord, é explicitada sua teoria de que todas as pessoas vivem suas vidas como se fosse um espetáculo, tentando oferecer o melhor “show”. Nesse sentido, a busca por um “corpo ideal” se tornou essencial para o sucesso, visto que se encaixar nos padrões seria se aproximar da perfeição tão requisitada pela sociedade. Por conseguinte, as pessoas que destoam desse padrão são excluídas e, algumas, acabam por desenvolver distúrbios alimentares e de imagem, o que evidencia a nocividade dessa imposição.
Torna-se evidente, portanto, que medidas são necessárias para combater a problemática do culto à padronização corporal no Brasil. Nesse viés, além de desenvolver campanhas publicitárias de conscientização, o Estado e o Ministério Público devem, em parceria com o Ministério da Educação, promover projetos e debates em colégios e faculdades a fim de revelar os riscos desse culto. Isso deve ocorrer por meio de palestras com profissionais da saúde e de marketing, para que os jovens sejam menos afetados pela cultura das propagandas e saibam reconhecer os sintomas de alguns dos distúrbios alimentares. Somente assim, evitaremos que mais casos como o de Ellen ocorram no país.