O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 30/06/2020

A obra “Homem Vitruviano”, do renascentista Leonardo da Vinci, retrata como o corpo humano é idealizado, desde tempos remotos. Nessa perspectiva, é possível notar, hodiernamente, uma ressignificação do corpo que remete somente à estética, fato este que gera comportamentos exagerados, como o culto ao corpo padrão e o preconceito com o excesso de peso: gordofobia. Esta discriminação ocorre não só pela propagação midiática de estereótipos “ideais”, mas também pela manutenção histórica de tal preconceito na sociedade.

Primordialmente, é notório que há, nos canais midiáticos, uma veiculação de um estereótipo corporal idealizado, o qual passa a ser desejado obsessivamente por uma parcela significativa da população.Sendo o Brasil palco de constantes cobranças para o alcance dos padrões estabelecidos, como foi observado em pesquisa realizada pela marca de cosméticos Dove, que apontou o país como acima da média global na porcentagem de mulheres que se sentem pressionadas a atingir o corpo ideal. Com efeito, nota-se a popularização atual do mundo “fitness”, como exemplifica as influenciadoras digitais e modelos expondo corpos magros e com definição muscular, além da divulgação de produtos relacionados ao emagrecimento.

Ademais, é perceptível que o preconceito com quem está acima do peso existe desde outras épocas. Dessa forma, pode-se perceber que tal preconceito foi, e ainda o é, transmitido por gerações, o que evidencia a banalização da gordofobia. Assim, a filósofa judia Hannah Arendt, em sua teoria “banalidade do mal”, defende que o comportamento xenófobo ou preconceituoso passa a ser realizado inconscientemente quando os indivíduos normalizam tal situação, o que pode ser comparado com a questão da discriminação das pessoas gordas. Essa realidade é demonstrada na série  ‘‘Euphoria’’ que aborda a vida da personagem Kat, uma adolescente acima do peso que desde a infância sofre bullying por não se enquadrar nos padrões de beleza.

É notória, portanto, a influência de fatores educacionais e culturais na problemática supracitada. Nesse viés, cabe às escolas, em consonância com ONG´s da área, orientar a população acerca da relevância da aceitação pessoal. A ideia é, a partir de palestras e debates nas salas de aula, além de campanhas na internet e nas ruas, desconstruir os padrões criados e promover a diversidade de belezas. Paralelamente, a mídia, enquanto formadora de novos comportamentos e opiniões, deve desenvolver projetos de propagação da heterogeneidade estética existente no país. Essa medida deve contar com propagandas educativas nos veículos de comunicação e telenovelas que abordem o tema a fim de superar os ideais de beleza e garantir a harmonia da sociedade brasileira.