O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 12/11/2020

O filme “O Mínimo para Viver”, original Netflix lançado em 2017, retrata os dramas vividos por Ellen, uma jovem anoréxica de apenas 20 anos, abordando a questão da busca incessante pela magreza e obtenção do “corpo perfeito” em detrimento da saúde. De mesmo modo, é flagrante a devoção prestada a padronização corporal na sociedade canarinha, que é intensificada pela mídia ao mostrar o corpo considerado ideal constantemente relacionado com a felicidade e o sucesso. Assim como, a crescente banalização das operações estéticas.

Sabe-se que a propaganda tem um papel fundamental no convencimento da população sobre determinado tema consoante ao pensamento de Henry Ford ao afirmar “Se eu tivesse um único dólar, investiria em propaganda”. Dessa maneira, a imagem do biotipo Barbie e Ken atrelados a sorrisos,  dinheiro e fama apresentado na televisão, nas revistas, na internet e nos outdoors faz com que os indivíduos procurem se igualar a esses modelos para alcançarem a satisfação pessoal. Além disso, conforme o sociólogo especialista em Saúde Pública, Francisco Romão Ferreira “Em um país com uma desigualdade social muito grande, o físico é um capital para a ascensão social”, ou seja, como o acesso à educação e ao crescimento profissional não ocorre de maneira homogênea o corpo vira um meio de melhora na condição de vida do sujeito passando a ser cada vez mais cultuado.

Ademais, a indústria das cirurgias plásticas tem se tornado cada vez mais conhecida, acessível e simplificada ao grande público tendo como resultado o crescimento no número de adeptos. A exemplo, pode-se citar a facilidade de realizá-las por meio de pagamentos parcelados ou consórcios por operadoras de crédito, além da frequente exposição irreal de procedimentos como abdominoplastias, lipoaspirações e implantes de silicone como sendo descomplicados, de baixo risco e de curto período de recuperação. Dessarte, de acordo com uma pesquisa da ISAPS (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética) o Brasil ocupou o primeiro lugar no ranking dos países que mais realizaram procedimentos estéticos no mundo em 2018. Porém, paralelamente ocorrem muitos procedimentos clandestinos que prometem menor custo, mas são realizados por profissionais não capacitados, em locais inadequados e até mesmo com produtos contraindicados, tornando a busca pelo “belo” mortal.

Portanto, pode-se inferir a relevância da conscientização sobre a diversidade da beleza. Sendo assim, cabe ao Ministério da Educação promover o desenvolvimento de projetos nas escolas, que visem a desconstrução da imposição de padrões corporais, por meio de materiais lúdicos, dinâmicas pedagógicas, palestras e debates. Para que tenhamos cidadãos mais satisfeitos com seus corpos e que enfrentem cada vez menos problemas como os vivenciados por Ellen em “O Mínimo para Viver”.