O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 13/11/2020

O livro “Feios”, de Scott Westerfeld, se passa em um futuro distópico, no qual os jovens passam por uma série de procedimentos estéticos de forma obrigatória e se adequam ao único padrão de belo permitido na sociedade. Semelhantemente, a padronização corporal no Brasil impõe uma beleza inalcançável, que, formada por um processo histórico, cria hodiernamente necessidades de consumo e gera insegurança às pessoas que não conseguem alcançá-la.

Sabe-se, em primeiro plano, que o padrão de beleza é arraigado em bases históricas, e muda de acordo com os objetivos da sociedade. Nesse sentido, na transição da Idade Clássica para a Idade Média, o conceito de belo foi alterado com o intuito de transmitir os ideais da Igreja Católica, os quais predominavam na época. De igual modo, desde a sociedade colonial brasileira, rigorosos padrões estéticos são implantados para as mulheres. Dessa forma, de acordo com Naomi Wolf em seu livro “O Mito da Beleza”, tal processo é reflexo de um machismo estrutural, pois pretende coibir a busca feminina por seus amplos direitos por meio da imposição de diversos deveres estéticos que ocupam o seu tempo. Sob outro aspecto, tal machismo também leva ao comportamento denominado como “masculinidade tóxica”, que exige aos homens que seus corpos sejam altos e fortes, o que se exemplifica pelo transtorno da Vigorexia, busca distorcida por um corpo musculoso, que, de acordo com dados do Hospital Santa Mônica, atinge majoritariamente o sexo masculino e revela o ideal vigente.

Constata-se, ainda, que a padronização corporal coopera para a criação de uma necessidade de consumo, resultado da angústia pessoal em busca de uma imagem perfeita. Dessa maneira, os cidadãos brasileiros não só sentem uma pressão estética maior que a média mundial, de acordo com pesquisas da instituição Eldeman Intelligence, como, de acordo com a Revista Forbes, participam do quarto maior mercado da beleza do mundo. Assim sendo, evidencia-se que a busca pelo corpo ideal leva ao consumo de produtos de beleza, procedimentos estéticos e remédios que podem, quando consumidos de forma descontrolada, causar riscos à saúde de quem faz seu uso. Ademais, deve-se destacar que as redes sociais são um dos principais ambientes em que tal fenômeno ocorre, haja vista os usuários comparem-se constantemente com as imagens divulgadas nesses ambientes, o que, conforme a pesquisadora Jasmine Fardouly causa insegurança e sentimento de inferioridade.

Portanto, são necessárias ações afirmativas em relação à diversidade da beleza. Cabe, então, à sociedade civil se mobilizar para pressionar Mídias Sociais, a fim de que essas divulguem campanhas que manifestem os diferentes espectros do belo, por meio do impulsionamento de publicações plurais. Enfim, os indivíduos se identificarão e a ditadura do belo permanecerá apenas como distopia.