O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 03/05/2021
A tela renascentista “O Nascimento de Vênus”, feita pelo artista Sandro Botticelli, retrata o processo de criação da deusa da beleza e do amor que, a partir de um viés de proporcionalidade, busca a idealização do corpo, sobretudo, feminino. Nesse sentido, apesar do hiato temporal, percebe-se que a conjuntura brasiliense exala nuances do século XIV, visto que assim como a luminosidade empregada à ênfase do corpo de Vênus - pelo jogo de luz e sombra - , o culto à padronização corporal destaca um único viés de beleza. A partir desse contexto, é imprescindível analisar as origens dessa problemática, a saber, a influência mercantil, bem como o processo educacional falho.
É válido destacar, em primeiro plano, que a uniformização do viés de beleza possui como motivação uma ótica predominantemente capitalista. Isso porque a base da opinião individual é, de forma majoritária, moldada pela elevada incidência da publicidade que, ao divulgar os ditames da “última moda”, aliado aos estilos de vida “saudáveis” - em sua maioria, adimitindo somente o corpo magro - acaba por tornar vendável procedimentos, produtos estéticos e alimentos julgados como favoráveis à ornamentação física. Nesse ínterim, ao tomar como base o pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu, para quem a linguagem corporal é marcada pela distinção social, que coloca a forma de representação - como vestuário e os cuidados com a beleza - como mais importante modo de diferenciação dos demais sujeitos, o corpo passa a ser objetificado e distante de uma representação autêntica do indivíduo.
Outrossim, o ensino é fator preponderante à cosmovisão individual e, no entanto, apresenta lacunas que se reverberam na manutenção de uma visão míope da realidade desde a infância. Essa questão pode ser explicada devido à pouca ênfase das singularidades físicas de cada sujeito, - aspecto explícito ao perceber que os materiais didáticos, em sua maioria, apresentam figuras de personogens com características homogêneas -, resultando em uma falta de identificação por parte dos indivíduos. Sob esse viés, para o educador mineiro Rubem Alves, “a primeira tarefa da educação é ensinar a ver, pois é através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza do mundo”. Não obstante, a interação recorrente com um único aspecto corpóreo acaba por motivar uma ótica deturpada do “natural”, contrária ao pensamento do escritor, que, para além da infância, é interiorizada como um modelo a ser seguido na vida adulta.
Urge, portanto, que medidas sejam implementadas para a resolução da problemática, nesse sentido, compete