O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 27/05/2021

A Constituição Federal de 1988 assegura uma vida digna, livre e igualitária a todos os cidadãos. No entanto, observa-se exatamente o contrário quanto à questão do culto à padronização corporal no Brasil. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema, em virtude da atuação das grandes marcas e do descaso governamental.

Primeiramente, cabe abordar o papel negativo da indústria da moda no que diz respeito à aceitação da diversidade dos corpos. Conforme o pensamento de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, a violência simbólica é uma forma de violência exercida sem coação física, causando danos morais e psicológicos. Nesse sentido, concorda-se com tal lógica ao verificar que, atualmente, as grandes marcas brasileiras excluem corpos não padronizados, fazendo com que essas pessoas se sintam oprimidas e não representadas. Isso ocorre porque a indústria do vestuário, caracterizada pela cultura engessada de corpos padrões, não inclui pessoas gordas e deficientes em suas coleções e desfiles, sobretudo as marcas mais luxuosas, que são as principais influenciadoras do mercado mundial da moda. Por conseguinte, os corpos fora do padrão continuarão sendo excluídos e, ainda, na busca pelo corpo “perfeito”, estarão mais suscetíveis a desenvolver transtornos, como anorexia e bulimia.

Ademais, outro fator a salientar é o desinteresse do Governo no que tange à padronização dos corpos brasileiros. De acordo com Aristóteles, filósofo grego, a política tem como função preservar a amizade de indivíduos de uma sociedade. Contudo, nota-se, em grande parte dos transportes e banheiros públicos, que o Estado contribui para a manutenção da padronização dos corpos, visto que, apesar do papel crucial da política na luta contra a exclusão dos cidadãos gordos e deficientes, os assentos dos transportes coletivos não são acessíveis e as cabines dos banheiros públicos são pequenas. Sendo assim, o Estado, que deveria assegurar o bem-estar social, ignora ações que poderiam, potencialmente, garantir a acessibilidade de todos e, consequentemente, auxiliar na diversificação dos corpos.

É indispensável, portanto, intervenções suficientemente efetivas para combater o culto à padronização dos corpos. Para isso, a indústria da moda, com o apoio das mídias, deve investir em campanhas e desfiles, por meio de parcerias com pessoas gordas e deficientes, a fim de cultuar corpos diversificados. Além disso, é imprescindível que o Estado, com o auxílio dos Governadores de cada município, deve reconfigurar os transportes e ambientes mediante verbas governamentais, a fim de torná-los acessíveis para todos.