O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 30/05/2021

A supermodelo britânica Kate Moss citou em 2009, em tradução livre: “nada tem o gosto tão bom quanto a sensação de ser magra”. Em 2018 a mesma revelou à rede de televisão NBC que se arrepende de ter dito tais palavras. Dietas absurdas e treinos exageradamente pesados interferem no bem-estar de um indivíduo e os efeitos de uma sociedade que cultua padrões estéticos são muitos. Em um país que exporta tantas técnicas de beleza como depilação e até mesmo implantes, a discussão sobre o culto à padronização corporal no Brasil deve ser levada a sério, reconhecendo os perigos que junto a ele vêm.

Segundo a ISAPS (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética), em 2020, o Brasil alcançou a liderança no ranking dos países que mais realizam cirurgias plásticas. É interessante notar que um levantamente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que o Brasil ocupa também a 5° posição entre os países que mais utilizam a internet. O que antes já era nocivo em revistas e na televisão se agrava ainda mais com o surgimento das mídias sociais, que exibem constantemente imagens irreais, e na maior parte dos casos, editadas, para públicos de todas as idades. Crescer com um padrão de beleza inalcançável em mente perturba o intelecto dos jovens, causando problemas relacionados à autoimagem, como a dismorfia corporal, e distúrbios alimentares.

Ferramentas que antes se limitavam a celebridades hoje estão ao alcance do público regular, permitindo com que qualquer um edite suas fotos para parecer o mais padronizado possível. Sejam corpos curvilíneos, torneados ou extremamente magros, não faltam padrões que façam quem está sujeito a eles se sentir inválido. Quando uma imagem está sempre relacionada à felicidade, a pessoa comum acha que só se sentirá completa ao alcançá-la. A verdade é que ninguém que busca assíduamente o corpo perfeito poderá algum dia se sentir inteiramente satisfeito, e esse é exatamente o objetivo que o ramo da beleza tem em mente, rebaixar a autoestima do consumidor aumenta o consumo, por isso os padrões mudam tão constantemente e são tão contraditórios, artificiais e cruéis.

Para que a sociedade possa se libertar desses padrões que tanto prejudicam o seu bem-estar é importante que o indivíduo se aceite, cultue o seu próprio corpo e respeite os seus próprios limites, isso, porém, não acontece da noite para o dia. É necessário o apoio de agentes sociais como a escola que deve levantar debate acerca do assunto instigando o jovem a formar sua opinião na problemática e criar consciência, dificultando a alienação aos padrões de beleza impostos pelo mercado. Como é um assunto muito cultural é importante que a questão também seja levantada pela mídia e na internet, tentando substituir imagens tão danosas por projetos que acolham todos os tipos de corpos e rostos. A sociedade enfim entenderá que a aparência deve ser a coisa menos interessante em uma pessoa feliz.