O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 31/05/2021

Na história em quadrinhos “O Regime Alfabético”, do cartunista brasileiro Maurício de Sousa, a personagem Pipa, para obter um corpo perfeito, segue uma rígida e desnecessária dieta, o que a faz desenvolver sérios transtornos alimentares. Fora do contexto literário, tal enredo mostra-se como uma crítica velada a uma realidade recorrente na sociedade brasileira. Dessa forma, faz-se necessário discutir o culto à padronização corporal no Brasil, sendo essa problemática agravada pela alienação da mídia e pela construção cultural do país. Tal fato reflete um cenário extremamente complexo no que diz respeito aos seus efeitos sobre a população nacional.

Em primeiro plano, de acordo com a Teoria da Tábula Rasa, do filósofo inglês John Locke, os seres humanos são moldados pela sociedade e seus costumes. Hodiernamente, tal conceito aplica-se aos brasileiros, que se veem integrados a uma realidade em que a indústria da moda utiliza-se dos meios de comunicação de massa para disseminar padrões corporais que são considerados determinantes para o pertencimento ao corpo social. Assim, pressionadas pelos ideais de beleza amplamente divulgados, as pessoas seguem dietas exageradamente restritas e inflexíveis, o que representa um risco grave, uma vez que tais alimentações podem levar ao desenvolvimento de distúrbios alimentares graves, como a bulimia e a anorexia, por exemplo.

Outrossim, de acordo com o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, a interpretação da realidade coletiva ocorre somente por meio do entendimento das forças que estruturaram o corpo social. Sendo assim, para entender a valorização demasiada da forma corporal ideal no Brasil, é imprescindível analisar o desenvolvimento cultural do país. Sob esse viés, o Ministério do Turismo, entre as décadas de 1960 e 1980, intensificou uma campanha publicitária que apontava o corpo torneado como impulsionador do turismo e da imagem nacional no exterior. Destarte, a busca pela manutenção da imagem tupiniquim resultou no enraizamento dos estereótipos de beleza na sociedade, o que foi estimulado pela influência midiática supracitada e contribuiu para o avanço de uma população míope.

Diante do exposto, para amenizar o culto à padronização corporal no Brasil, medidas devem ser tomadas. Para isso, cabe ao Ministério da Saúde, responsável pela disseminação de informações relacionadas à saúde, elaborar projetos de conscientização, por meio de campanhas publicitárias que abordem os malefícios do seguimento de padrões alimentares restritos. Posto isso, tais medidas teriam por finalidade criar um pensamento crítico e incentivar a aceitação dos vários tipos de beleza, o que aliviaria, consequentemente, a pressão estética sobre os indivíduos. Somente assim será possível construir um futuro melhor e a realidade distanciar-se-á do enredo escrito por Maurício de Sousa.