O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 06/06/2021
O padrão de beleza nem sempre foi um culto a magreza extrema. Nos anos 40, por exemplo, curvas eram os ícones da moda, com Marilyn Monroe e Elisabeth Taylor sendo adoradas por suas curvas e cabelos ondulados. Porém com a mídia atual, a própria sociedade dita o seu padrão, podendo variar a cada semana. Cada vez mais específicos e exigentes, entre fotos editadas e montadas, silicones, bisturis e dietas “mágicas”. É de extrema necessidade discutir os impactos e as consequências dessa padronização na contemporaneidade brasileira.
O estigma do corpo perfeito é imposto todos os dias. Seja em capas de revistas ou em tutoriais na internet, homens e mulheres com corpos torneados estampam o ideal de perfeição. O problema é que, no mundo real, esse padrão é quase impossível de ser atingido, resultando em uma sociedade frustrada por nunca alcançar o que lhe é imposto. O sentimento que esse estigma corporal desenvolve é que, fora daqueles padrões, o corpo não é saudável, desejado, belo e “apto para o consumo”. Para a indústria do consumo é mais fácil padronizar os gostos, pois, assim, promovem o consumo desenfreado. Hoje, já se ouvem vozes contrárias a esses padrões. Entretanto, a mídia ainda tem um poder muito forte nas representações sociais contribuindo para que esses estereótipos sejam perpetuados.
Sobretudo, essas padronizações não respeitam biotipos. O corpo humano é diferente e plural por si só. Dentre tantas misturas e formas, chega a ser cruel eleger apenas uma como legítima e digna de representar o belo. Na busca desenfreada por se assemelhar a tal padrão, muitos chegam a arriscar suas vidas com procedimentos cirúrgicos arriscados e dietas que comprometem a saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 4,7% dos brasileiros sofre de distúrbios alimentares, no entanto, na adolescência, esse índice chega até a 10%. De acordo com Valeska Bassan, psicóloga e coordenadora do AMBULIM na USP, as redes sociais tem um papel importante no desencadeamento dos transtornos, uma vez que muitos influenciadores supervalorizam a magreza e o corpo perfeito, tornando-se um gatilho para esses seguidores.
É preciso, portanto, que se reflita sobre essa representação corporal que é imposta a cada dia. O primeiro passo deve ser dado pelo próprio indivíduo, sendo mais flexível consigo mesmo e libertando-se dessa visão limitada de beleza. Porém, na esteira desse movimento, também deve estar o apoio dos agentes sociais. A escola precisa levantar esses questionamentos e debater sobre os estigmas corporais. A mídia, por sua vez, deve assumir a sua responsabilidade enquanto formadora de opinião e promover uma reflexão aprofundada sobre o assunto. Talvez assim, a sociedade compreenda que a singularidade da beleza está justamente no seu aspecto plural.