O culto à padronização corporal no Brasil
Enviada em 06/06/2021
Na Grécia Antiga, o berço da civilização ocidental, surgia o ideal de “corpo perfeito”. Este era conquistado pelo meio das práticas de atividades físicas recorrentes. Uma das concepções politeístas era a consideração entre a semelhança entre os deuses e homens em virtudes e defeitos. Assim, o desejo pelo corpo belo, forte e rápido era um meio de se aproximar das divindades, e com isso, inibir a suscetibilidade e alcançar a perfeição. Não obstante, atualmente o corpo é alvo de uma atenção redobrada a partir do desenvolvimento de técnicas de cuidado como dietas, musculação e cirurgias estéticas. Desta maneira, é necessária a discussão sobre o culto à padronização corporal no Brasil e às consequências em sua busca.
Um dos principais aspectos que tem a importância da sociedade capitalista atual é a importância crescente atribuida ao aspecto corporal. Homens e mulheres investem incessantemente mais tempo, energia e recursos financeiros no consumo de bens e serviços prestados diretamente à construção e manutenção da imagem corporal. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil lidera o ranking mundial de cirurgias plásticas, e em 2018, realizou mais de um milhão de procedimentos. A preocupação estética está naturalizada no cotidano e não para de crescer. À visto disso concebe-se uma obrigação eminente em expor um corpo perfeito que acaba por banalizar operações estéticas alinhando a uma ditadura de beleza inexistente.
Em segundo plano, outro fator que contribui para este fenômeno no Brasil é uma vasta extensão litorânea, onde a maior parte das capitais estão próximos a costa e o calor se faz presente na maior parte do ano e a cultura da praia é intensa. Logo, o corpo torna-se o principal bem dos brasileiros. Em um país com um abismo na desigualdade social, o físico é um capital à ascensão social. No entanto, uma busca desenfreada da estética não é um episódio de certas classes, mas é constatada entre pobres e ricos. Por exemplo, nas favelas brasileiras: salões de beleza e academias têm forte presença, e nas classes mais abastadas há o engajamento em fenômenos da moda, como o crossfit. Deste modo, evidencia-se que em todas as camadas sociais, o sentido de existência se volta para o corpo.
Impende, portanto, que para desconstruir os tais padrões existentes, o poder midiático em todas suas formas deve contribuir para promover campanhas que apresentem a coexistência dos diversos modelos fisícos de beleza existentes em território nacional, em virtude da heterogeneidade presente. É crucial que as escolas de ensino fundamental e médio se insiram nessa discussão, a fim de incitar um pensamento crítico acerca desta problemática, sobretudo, valorizando as individualidades de cada um, desde cedo. Desta forma, o Brasil irá gradativamente desagregar padrões ilusórios.