O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 06/07/2021

Em " Festa", capítulo de “Vidas Secas”, do autor Graciliano Ramos, as personagens forjam uma aparência caracterizada, no livro, como incômoda para se encaixarem nos padrões corporais impostos pela sociedade. Fora da ficção, a realidade do Brasil é semelhante, uma vez que o país é conhecido mundialmente por ser o que mais realiza cirurgias plásticas, o que comprova, então, o culto à padronização corporal. Sob esse viés, é necessário analisar como a falta de representatividade, bem como o silenciamento do tema, contribuem para esse grave problema.

Em primeira análise, é relevante abordar que a carência de visibilidade de corpos que não seguem o padrão do corpo magro, o qual é imposto pela socidade conservadora brasileira, influi na consolidação desse entrave. Nesse sentido, apesar da existência de movimentos de autoaceitação corporal, como o “Corpo Livre”, criado pela jornalista Alexandra Gurgel, nota-se, no Brasil, maior visualidade do arquétipo padrão, seja em novelas, seja em desfiles de moda. Sob essa perspectiva, tal situação vai contra o pensamento da poetiza Rupi Kaur, visto que ela afirma que a representatividade é vital. Dessa forma, sem a representação de diferentes fenótipos em espaços de destaque, por exemplo, na mídia, o tema não recebe a devida atenção pela sociedade, o que dificulta, por conseguinte, uma intervenção.

Outrossim, a falta de debate sobre o assunto é outro ponto relevante para a devoção à padronização corporal na sociedade verde-amarela. Nesse aspecto, segundo o filósofo Habermas, a linguagem é um importante instrumento de ação. Dessa maneira, como o tema não é discutido pelo corpo social de maneira ampla, já que, pela pouca representatividade, as escolas espaços de promoção do conhecimento não abordam essa pauta com frequência. Assim, o silenciamento deve ser combatido para que o tecido social do Brasil tome consciência do assunto e aja contra essa uniformização.

Portanto,  urge uma solução. Destarte, cabe aos Ministérios das Comunicações e da Educação a criação de um programa, que pode se chamar “Positividade Corporal”, a fim de promover a representatividade de todos os fenótipos e de debater sobre o assunto.  Esse programa deve ser feito por meio de campanhas que devem ser protagonizadas por figuras de autoridade, como Gurgel, e que falem do tema na mídia e nas escolas. Desse jeito, a situação exposta em “Festa” será apenas ficção.