O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 03/05/2018

“O amor é cego” foi um filme lançado na primeira década do século XXI e têm sua trama marcada pela estereotipagem quanto a aparência corporal contemporânea. Não obstante seja ficcional, a obra americana revela um lado tanto quanto polêmico, visto que o protagonista, hipnotizado, apaixona-se por uma garota obesa e é caçoado por isso pelos amigos, quando na verdade, em seu estado hipnótico, ele a via como uma garota perfeita, que segue os padrões corporais difundidos pelas mídias. A reflexão da obra nos faz pensar sobre os fatores que contribuem para que tal valorização seja tão exacerbada e, ainda, as projeções futuras caso essa mazela não seja combatida.

Em primeira análise, vale mencionar o advento dos meios de comunicação como propulsor da padronização estética. Isso porque foi por meio da internet, principalmente, e das redes sociais que houve uma massificação social direcionada a ideais de corpo que dificilmente conseguem ser atingidos e, por conseguinte, movimentam-se grandes capitais em prol da aparência física. Essa forma deturpada de alienação leva a sociedade moderna a uma concepção errônea de que o corpo mais belo é aquele imposto pelas revistas de modelo, além de permitir a perpetuação de preconceitos para com aqueles que destoam dessa utopia.

Em segunda análise, é válido conscientizar-se de que o mundo vive sob a égide do narcisismo. Este termo, criado pelo psicanalista Freud, tem como base o mito grego de Narciso, o qual conta a história de um herói vaidoso ao extremo que se apaixona pela própria beleza e se afasta de todos a fim cultuar somente a si mesmo. Aliás, Freud foi, ainda, o primeiro a estabelecer o narcisismo como uma patologia, que deveria combatida de imediato, já que essa situação rompe, também, a harmonia psíquica do indivíduo. Partindo desse pressuposto, nota-se que a sociedade, decerto, tem relevado a máxima freudiana, uma vez que ao suscitar o culto a aparência, abre caminhos para o fortalecimento do ego concomitantemente ao isolamento individual, por produzir uma concepção de superior ante os demais.

Fica evidente, portanto, que o homem contemporâneo atribui à beleza uma importância nociva a seu desenvolvimento. Nesse sentido, é preciso que o indivíduo dê o primeiro passo, sendo mais reflexivo consigo mesmo e libertando-se dessa visão limitada de beleza que lhe é imposta a cada dia, a fim de que desapareça a porção Narciso que habita em nós, ou nos afogaremos tal qual o personagem do mito grego. É imperativo, ainda, a contribuição da escola, levantando questionamentos e debates sobre os estigmas corporais, e da mídia, reduzindo as propagandas exageradas sobre a estética corporal e promovendo reflexões mais aprofundadas sobre o assunto. Quem sabe assim, a sociedade compreenda que a singularidade da beleza está justamente no seu aspecto plural.