O culto à padronização corporal no Brasil

Enviada em 13/04/2018

No decorrer da história os padrões de beleza apresentam-se mutáveis. Na idade média as mulheres que assumiam formas mais arredondadas eram consideradas as mais belas, visto que indicava fartura. No contexto de uma sociedade globalizada, por outro lado, os paradigmas sobre a beleza circulam de maneira onipresente em filmes, programas de televisão, novelas e anúncios publicitários. Com isso, há uma tentativa de condicionamento social à adoção de tais padrões. Isso torna-se evidente quando observamos o faturamento crescente da indústria da moda, cosméticos e cirurgias plásticas. Nesse sentido, é imprescindível que a ideia de que a beleza é única, padronizada e imutável seja revertida.

É notório que a busca exagerada de ideais de beleza pode conduzir o indivíduo ao adoecimento psíquico, que traz consigo a ideia de não aceitação da própria imagem corporal. Os adolescentes costumam ser as maiores vítimas desse imperativo social, pois nessa fase da vida o sujeito busca constantemente validação e aceitação de grupos sociais. Por conseguinte, verifica-se que o bullying, o suicídio, bem como transtornos depressivos e de ansiedade podem ter íntima relação à tentativa frustrada de adequação ao conceito de belo. O sociólogo Émile Durkheim propôs a tese de que o suicida goza de poucos fatores sociais protetivos. Sendo assim, a sociedade deve retificar os conceitos de beleza que são, em sua maioria, inatingíveis à maioria da população.

Nesse cenário, torna-se evidente a intenção mercadológica por detrás do que se considera belo. Visto que a maioria das pessoas não se enquadra nos padrões corporais idealizados, a indústria da beleza, através da publicidade, oferta diversos produtos e práticas, em geral de alto custo agregado, que prometem ao indivíduo o bem-estar social. No entanto, esse processo não se esgota com a aquisição de itens de beleza, o que conduz, dessa forma, as pessoas ao descontentamento com a aparência. Urge repensar se o alto faturamento às custas da saúde mental da sociedade é um valor a ser transmitido às novas gerações.

Faz-se necessário, portanto, que a população seja instruída ao questionamento do que realmente é considerado belo. Cabe ao Ministério da Saúde, o fortalecimento do programa saúde na escola, onde psicólogos possam discutir com os estudantes sobre o caráter mutável do paradigma de beleza, bem como proceder ao tratamento dos agravos à saúde causados pela não aceitação da imagem corporal. Como medida de longo prazo, a sociedade deve exigir da moderação da indústria nos valores estéticos veiculados na mídia, com vistas a inclusão, por exemplo, de modelos acima do peso, como já tem ocorrido, embora de modo insipiente. Desse modo será possível construir uma sociedade mais tolerante às diferenças estéticas de cada grupo étnico e social.