O desafio de se conviver em sociedade

Enviada em 10/11/2020

Na canção “Alô, Alô, Marciano”, a intérprete brasileira Elis Regina desabafa: “…aqui quem fala é da Terra, pra variar, estamos em guerra, cada um por si…” Apesar de ter sido escrita há quarenta anos, a letra da música reflete a conjuntura contemporânea, uma vez que, embora seja um animal social, o ser humano enfrenta dificuldades quanto ao convívio harmônico entre seus semelhantes, devido a condutas contestáveis, como a intolerância e a escassez de empatia no âmbito coletivo.

Em primeira análise, pode-se afirmar que a intolerância frente à diversidade humana, enraizada culturalmente no corpo social, é um dos fatores da problemática. De acordo com o autor do clássico “Leviatã”, Thomas Hobbes, o homem é o lobo do próprio homem. A célebre oração metafórica do filósofo pode ser associada ao preconceito das mais diversas vertentes existente na sociedade atual, -seja ele religioso, sexual ou racial - o qual promove discursos de ódio e violência. Essa afirmativa comprova-se ao se analisar dados recentes da ONG “Words Heal The World”, os quais revelam que ocorrem, em média, 33 crimes de intolerância diariamente no Brasil. Dessa maneira, o ser humano torna-se uma ameaça à sua própria espécie, o que compromete gravemente  a harmonia geral.

Em segunda análise, cabe ressaltar o individualismo e o egoísmo como agravantes do impasse. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade atual é marcada pela falta de empatia e pela defesa exclusiva dos interesses privados, sem buscar entender os propósitos alheios. Tal afirmação mostra-se contundente em pesquisa realizada pela Universidade Federal da Paraíba, a qual revela  que 42,6% dos jovens brasileiros apresentam dificuldade em se colocar no lugar do outro, o que pode resultar em dificuldades na interação social e no respeito às diferenças. Nessa perspectiva, o egoísmo é evidenciado hodiernamente, desde pequenas ações como a ocupação de vagas preferenciais nos estacionamentos, até as grandes disputas ideológicas mundiais de origem política e religiosa, em que a supervalorização do individual  e a negação dos princípios coletivos prejudica a ordem social.

Portanto, conclui-se que o convívio harmônico na sociedade ainda enfrenta entraves quanto à sua plena concretização. Dessarte, a educação, principal agente de transformação social, detém papel fundamental na superação da intolerância e do sentimento de egoísmo presentes no cenário contemporâneo. Por isso, é papel do Governo Federal desenvolver e inserir novos projetos nas escolas, que incluam debates, palestras e atividades dinâmicas, onde se discuta a importância do respeito às diferenças e da empatia, bem como os malefícios da ausência desses fatores na sociedade. Isso deve ser realizado por meio de maiores investimentos no campo educacional, com o objetivo de superar tais desafios e promover uma sociedade integrada, igualitária e harmoniosa.