O desequilíbrio entre consumo e sustentabilidade

Enviada em 08/10/2019

Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca o desequilíbrio entre consumo e sustentabilidade, percebe-se a influência dos diversos atores sociais sobre a construção do problema. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como a legislação ambiental ainda pouco eficaz caracteriza persistência da problemática, mas também analisar seus impactos no organismo social.

Em primeira observação, cabe compreender como o aparelho judicial brasileiro não consegue conciliar aspectos econômicos e ambientais de maneira ponderada. Atesta-se, assim, a ideia de Bourdieu na medida em que o legislativo atua sobre o meio, e este, de acordo com a corrente filosófica determinista, influencia o sujeito que ali se encontra. Exemplo dessa fragilidade legal é a recorrência de acidentes de enormes impactos ambientais, como o rompimento das barragens de Mariana e de Brumadinho, evidenciando problemas de ordem judicial em razão do seu envolvimento na regulamentação e no licenciamento dessas estruturas, reprimindo o aspecto ambiental em detrimento do comercial. É evidente, portanto, a necessidade de uma reforma nesse poder, de modo a atenuar as problemáticas que surgem dessa fragilidade das leis,

Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno age dificultando o combate ao tema. Evidencia-se, então, a lógica de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem o consumismo como danoso ao meio ambiente, na medida em que há uma enorme pressão sobre os recursos naturais para o abastecimento do mercado, dessa maneira, configuram-se cegos pela analogia do sociólogo. Não obstante, vê-se também a ótica de José Saramago, pois, em sua “falsa democracia” há a ilusão de livre escolha, enquanto estas seriam regidas pelo mercado. Configura-se como determinante, então, a reestipulação de valores sociais para assim alertar os indivíduos e torná-los parte ativa no combate ao desequilíbrio entre consumo e sustentabilidade.

Entende-se, diante do exposto, a necessidade de medidas serem implantadas para mudar o quadro atual. A princípio, é fundamental que o Ministério da Justiça afaste a influência mercadológica sobre a legislação ambiental, isso por meio do seu enrijecimento e da criação de rotinas mais rígidas de monitoramento e de fiscalização, favorecendo a sustentabilidade na cadeia produtiva, Ademais, cabe ao Ministério da Educação a criação de uma nova diretriz educacional que, ao ser implantada desde a primeira infância, estimule a preservação ambiental pela demostração dos problemas do consumo em excesso, isso por meio de teatros e debates em ambiente escolar, de modo a criar uma sociedade mais ciente e de participação mais ativa nessa causa. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.