O drama das pessoas desaparecidas
Enviada em 29/10/2019
Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições dos quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca do drama das pessoas desaparecidas, é nítida a influência de diversos atores sociais na construção da problemática. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como o Estado pouco promove ações de resolução deste quadro, mas também analisar seus impactos no organismo social.
A partir dessa problematização, cabe compreender como a falta de integração dos órgãos estatais na resolução desta causa catalisa o problema. Atesta-se, então, o olhar de Bourdieu, na medida em que essa instituição age sobre as peculiaridades do meio em que estão inseridas. Vale acrescentar que, embora a criação do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, em 2019, já seja de grande auxílio, o envolvimento Estatal na resolução do problema é pouco eficaz, pois, à medida que não há uma integração, de fato, das polícias e de um contato efetivo com a população, a troca de informações se vê prejudicada e, por consequência, o encontro de desaparecidos é dificultado. Por conseguinte, é nítida a necessidade de um maior envolvimento estatal no que tange ao tema, de modo a atenuá-lo.
Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno dificulta o combate ao tema. Constata-se, portanto, a ideia de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para se comoverem com as dificuldades do outro em razão da falta de envolvimento popular nas ações de busca, reconhecimento, e fornecimento de informações das pessoas desaparecidas. Nesse sentido, pessoas não apenas se mostram cegas, pela analogia do pensador, mas também dificultam o solucionamento da causa, justamente por não se mostrarem dispostas a cooperar pela falta de importância com o problema alheio. Urge, então, a importância da reestipulação dos valores sociais para atenuar essa problemática.
Entende-se, diante do exposto, a necessidade de medidas serem implantadas para conter o quadro atual. A princípio, é fundamental que o Governo Federal fomente a aplicação de medidas mais enérgicas no encontro dessas pessoas, isso pela integração dos bancos de dados das diversas polícias, favorecendo o aparato legal na causa, ou até mesmo pelo estabelecimento do contato à população pelas mídias sociais governamentais, como o Instagram, criando uma rede de ajuda mútua. Ademais, cabe ao Ministério do Desenvolvimento social o desenvolvimento de campanhas publicitárias que chamem a população a se tornar parte ativa nessa causa, pela atribuição da importância do envolvimento popular no reencontro dessas pessoas, de modo a favorecer esse processo. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.