O drama das pessoas desaparecidas

Enviada em 31/10/2019

Na série alemã “Dark”, fenômeno de audiência da plataforma Netflix, o enredo é centrado nos mistérios envolvidos com o desaparecimento do personagem Mikkel, o qual deixa sem pistas seus pais e amigos próximos. Todavia, fora da ficção, observa-se a questão do desaparecimento de pessoas como um problema comum na realidade brasileira. Com efeito, a inoperância estatal no estímulo à denúncia desses casos e a omissão social em relação ao próximo, configuram-se como obstáculos para a resolução do entrave.

Em primeira análise, nota-se o descaso do Estado no que tange à promoção de políticas públicas voltadas à notificação de atos de ausência de pessoas. De acordo com a Carta Magna de 1988, todo cidadão tem o direito à segurança e à liberdade. Contudo, a prática deturpa a teoria, visto que a máquina brasileira carece de investimentos e fomento para o fornecimento de pistas para a inteligência policial, em situações de indivíduos que se encontram em ausência repentina. Em consequência disso, tem-se uma baixa procura por parte da população pelos disque-denúncias, o que leva à dificuldade da resolutiva desses atos, ao ponto de atingir a triste marca de 250 mil desaparecidos em 2014, conforme dados do jornal “O Dia”.

De outra parte, percebe-se a indiferença social no que se refere ao compartilhamento de notícias e pistas sobre o paradeiro dos ausentes. Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua Teoria do Habitus, o corpo social possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos. Sob esse viés, depreende-se que a coletividade, ao longo do tempo, foi exposta a uma “cultura do egoismo”, a qual propagou valores individualistas, responsáveis por condicionar o corpo civil a pensar em si mesmo, sem se importar com as campanhas veiculadas na mídia e na dor das famílias de pessoas desaparecidas. Desse modo, é imperativo a alteração dessa “padronização” proposta por Bourdieu.

Nesse cenário, portanto, é vital a modificação do quadro delicado de sumiço de seres humanos no Brasil. Para tanto, o Tribunal de Contas da União deve elevar o quantitativo de verbas que, por intermédio do Ministério da Segurança Pública, serão revertidas na implantação de delegacias especializadas em ausência de indivíduos, além da contratação de policias para o atendimento nos disque-denúncias, com o intuito de reverter o embargo das investigações desses casos, a fim de garantir o que é previsto em Lei. Ao mesmo tempo, cabe às Prefeituras, aliadas às ONGs, a realização de palestras e mesas-redondas nas escolas, com vistas a engajar a população acerca da divulgação de informações de desaparecimentos. Destarte, o impasse abordado em “Dark” ficaria restrito às telas.