O drama das pessoas desaparecidas
Enviada em 28/10/2019
Na obra literária modernista “O quinze” de Rachel Queiroz, Pedro, filho mais novo do personagem Chico Bento, encontra-se com um grupo de retirantes e, a partir de então, ele não o vê mais. Fora da literatura, o drama das pessoas desaparecidas no Brasil consiste em uma problemática explicita no contexto hodierno. Nesse sentido, tal adversidade tem como principal causa o silêncio midiático frente aos desaparecimentos, e consequentemente, a inércia do governo no combate a tal catástrofe que prende a sociedade em um ciclo vicioso de vitimas.
Em primeiro lugar, destaca-se a mudez da grande mídia brasileira no que tange à divulgação de desaparecidos, uma vez que de acordo com o CICV ( Conselho Internacional da Cruz Vermelha) o drama de sumidos no Brasil, apesar de latente, ainda é subnotificado, e a realidade quantitativa não chega à grande massa. Dessa maneira, de acordo com o IBGE, o Ministério da Justiça (MJ) segue contabilizando mais de duzentos mil de desaparecidos por ano no território. Ademais, em paralelo ao contexto histórico do Nazismo, a grande mídia da época -controlada pelo totalitarismo- omitia-se frente às atrocidades praticadas nos campos de concentração levando ao conceito de “banalidade do mal” proposto pela filósofa política Hannah Arendt que versa sobre a normalidade do mal na sociedade e inércia de combate ao mesmo,dessa forma, visto, também, na questão dos sumiços de brasileiros.
Por conseguinte, o governo mantém-se inerte frente a essa demanda indo de encontro ao artigo primeiro da lei 13812/19 que atribui ao Estado o dever da busca eficaz de desaparecidos. Não obstante, esse cenário choca-se com a teoria do contrato social de John Locke que discorre sobre a abdicação da liberdade individual em troca de direitos considerados por ele, inalienáveis e inerentes ao homem, entre eles a dignidade, por sua vez, retirada das vítimas e famílias que perpassam essa situação sem nenhuma divulgação midiática e, tampouco, respaldo governamental contribuintes para a perpetuação desse ciclo vicioso de vitimizados.
Portanto, urge que a intempérie citada seja superada. Destarte, é mister que os setores midiáticos unam-se em prol da divulgação massiva dos casos de desaparecidos, por meio de propagandas de alerta que notifiquem tais casos em horários nobre nas rádios e televisões, ao passo que, haja a inserção desses anúncios para usuários do Facebook e Instagram, a fim de mobilizar a grande massa acerca do exposto. Concomitantemente, após a pressão midiática, o governo federal deve mover-se e criar delegacias especializadas na causa com um corpo policial apto a tornar as buscas denunciadas pela mídia mais eficientes. Somente assim, a sociedade poderá contradizer o evidenciado na obra “O quinze”, e as famílias não só encontrarão, como também, evitarão o desaparecimento de seus entes.