O drama das pessoas desaparecidas

Enviada em 31/10/2019

É possível, por intermédio da linguagem simples e coloquial do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond, fazer uma analogia a respeito dos elevados índices de desaparecidos no Brasil. Acerca de tal análise, pode-se ligar a pedra, presente na obra drummondiana, à crescente manifestação da problemática no cotidiano dos brasileiros. Ainda, constata-se que o revés está atrelado não somente à inoperância estatal, mas também as consequências da revolução da instituição familiar.

De início, pontua-se o desleixo governamental como precursor do agravamento da situação. Na obra “Ética a Nicômaco”, Aristóteles, defende que a política serve para garantir o bem-estar dos cidadãos. Porém, o descaso dos governantes em relação a busca por entender e solucionar os fatores sociais responsáveis pela problemática, fomenta a atual inadimplência do Estado em solucionar a mazela social. Porquanto, os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os quais revelam que 693.000 pessoas desapareceram nos últimos 10 anos, exemplificam o desdém político-administrativo. Dessa forma, verifica-se a necessidade de uma reformulação nos valores e nas ações político-sociais, a fim de que o axioma aristotélico retorne ao cerne dos princípios governamentais e os acontecimentos supracitados possam ser mitigados à população.

Iniciada em meados do século XX, a 3ª Revolução Industrial trouxe consigo inúmeros avanços à humanidade. Em conjunto com as revoluções tecnológicas, as transformações das relações sociais se configuram como elementos característicos dos novos tempos, os tempos líquidos, termo proposto por Zygmunt Bauman, que designa o atual estágio da sociedade contemporânea. Tais aspectos, todavia, têm possibilitado um remodelamento nos hábitos comportamentais das famílias, a exemplo, tem-se a constante terceirização dos diálogos entre pais e filhos, o que por sua vez provoca um distanciamento comunicativo e proporciona, ainda, a formação de problemas psicossociais. Nesse sentido, o site de notícias Cidadelivre.com, revela que 17% dos casos de desaparecimento são decorrentes de fugas voluntárias, em virtude de problemas familiares.

Logo, para que o triunfo sobre os elevados índices de pessoas desaparecidas seja consumado, urge que o Ministério da Justiça, por meio dos recursos enviados pelo Estado, promova melhorias e atualizações nas ferramentas de busca, de modo a tornar o processo investigativo mais eficiente. Ademais, essa ação deverá ser acompanhada por uma distribuição de cartilhas, com o objetivo de ampliar taxa de casos solucionados. Ainda assim, recursos deverão ser direcionados na divulgação de campanhas publicitárias, com o intuito de informar aos pais sobre a importância do diálogo familiar no desenvolvimento social das crianças. Dessarte, a pedra poderá ser removida do caminho social.