O drama das pessoas desaparecidas
Enviada em 08/04/2020
Na década de 90, o deputado Ulysses Guimarães sumiu durante um vôo e, mesmo com todas as buscas realizadas pelas autoridades, seu corpo nunca foi encontrado. No Brasil, o sumiço da população tornou-se comum, haja vista o desaparecimento de mais de 200 pessoas por dia, demonstrando a incapacidade do Estado na afirmação da segurança do povo. Com isso, compreende-se que a resolução do drama de pessoas desaparecidas no país se insere na questão da reavaliação dos processos investigativos e na manutenção de organizações civis voltadas ao encontro dessas pessoas.
É indiscutível que o drama existente define-se pela inversão do problema do desaparecido enquanto preocupação afetiva e imediata para uma preocupação de ordem numérica e impessoal. É comum nos relatos destas pessoas a descrição da procura como solitária, isto é, relatam haver na busca uma sensação de desamparo. Isso, pois, o empenho de familiares e amigos não se reflete nas ações dos órgãos públicos responsáveis pela busca. Por quase 25 anos, Ivani Esperedião, fundadora da ong Mães da Sé, reivindicava, juntamente a outras dezenas de representantes de desaparecidos, a criação do cadastro nacional de pessoas desaparecidas, que só foi criado em 2019. Essa situação agoniante demonstra a urgência da implementação e fixação de melhorias investigativas no país.
Outrossim, mesmo após a conquista do cadastro único, vê-se que sua manutenção é debilitada. Mesmo agora com a plataforma online, endereçada desaparecidos.mj.gov.br, Marianne Pecassou, membra do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, declara haver casos de subnotificação. Desse modo, o efetivo investigativo, já naturalmente fraco, atua desorientado e sem perspectiva geográfica dos casos, sem identidade etária e sem os motivos pelos quais se fundam os casos de desaparecimento. Tais números, que para os órgãos competentes parecem insignificantes, assombram de maneira precisa as lembranças dos parentes e amigos daqueles que desaparecem.
Com isso, infere-se a necessidade de um replanejamento da visão dos casos de desaparecimento no país. A priori, o Ministério da Justiça deve fortalecer o corpo técnico, atrelado a dados mais precisos e seguros, por meio de redirecionamento de verbas destinadas a pesquisas e infraestrutura da área, a fim de criar ou expandir métodos já existentes, como o retrato do desaparecido no presente, possível por meio de estudos antropométricos utilizados no serviço de inteligencia policial de São Paulo. Somente assim o drama dos desaparecidos no Brasil será resolvido e a segurança afirmada.