O drama das pessoas desaparecidas

Enviada em 12/10/2020

Filmes sobre desaparecimento de pessoas, como o Quarto de Jack, muito assistidos no Brasil, costumam retratar crianças em posse de maníacos. Este quadro contribui para inculcar, no imaginário popular nacional, a ideia do problema dos desaparecidos como exclusivo a esses casos. Entretanto, os sumiços podem ser muito mais complexos e variados, cabendo à mídia e ao Estado brasileiros darem-lhes a devida relevância.

Primeiramente, o grupo de desaparecidos não limita-se a crianças, fato ignorado pela mídia. Em virtude disso, doentes mentais, idosos e mulheres vítimas de violência doméstica são substituídos pelos telejornais por pueris. A história é repetida : crianças sumidas e mais tarde encontradas brutalmente violentadas sexualmente, mortas, tendo em vista a audiência do sensacionalismo. Embora tais casos sejam extremamente preocupantes, não se dá a devida relevância nem mesmo a outros algozes. Juntam-se aos maníacos, quadrilhas que visam a venda de órgãos ou a prostituição dos raptados. A mídia, afinal, é potencial veículo comunicador - suas mensagens chegam a milhões de brasileiros, o que aumenta as chances de encontrar-se o ausente. Os veículos comunicativos, portanto, perdem seu papel de mediadores de conhecimento, o que mina debates mais amplos sobre o problema, já negligenciado pelo Estado.

Neste sentido, instituições estatais, a exemplo da polícia civil, ao acolherem os registros de desaparecimento, muitas vezes não os investigam, uma vez que a prática em si não é crime. Isto é mostrado por reportagem da BBC (“British Broadcasting Company”), que também destaca a fraca articulação entre órgãos destinatários de muitos dos desparecidos. Sob este prisma, casos como o de Robson, retratado na mesma matéria, revelam sumidos enterrados como indigentes, ante o desconhecimento da família, já que hospitais, institutos de medicina legal e delegacias carecem de cruzamento de dados. Enquanto isso, no âmbito legislativo, pouco se faz - a lei 13812, que institui políticas nacionais sobre o tema, tarda por fazer-se regulamentar. Indubitavelmente, um Estado que preza pelo bem estar de seus cidadãos deve buscar evitar estas tragédias familiares.

Em suma, a mídia e o Estado desperdiçam sua influência de intervenção ao drama dos desaparecidos, ao mitigarem debates e ações. Desta forma, a primeira deve gerar, por meio de reportagens jornalísticas, pressão ao Estado, o qual deverá, por sua vez, em meio a leis, arquitetar os estados em investigações integradas, cujo objetivo será a elucidação de inúmeros casos de desaparecimento. O caso de Robson, por exemplo, seria agilmente finalizado e o banco de material genético brasileiro, aproveitado como fruto dessa articulação, agregaria ainda mais.